#Artigo

Você sabe o que é um AONB?

Por Leonardo Costa*

Doutorando em Inteligência Artificial e Ética Computacional. Especialista em Engenharia de Software, Gestão Estratégica e Gerenciamento de Projetos.

Você sabe o que é um AONB?    

Eu duvido. E isso não é uma provocação vazia. É quase uma súplica.

A sigla é nova, ainda estranha ao ouvido e, talvez, por isso mesmo tão urgente. Eu a cunhei num momento de exaustão teórica e vertigem existencial. Não porque eu quisesse inventar moda, mas porque nenhuma outra palavra dava conta do que está surgindo. Tive que rasgar o idioma com a ponta da unha e criar uma nova sigla. AONB. Agente Ontológico Não-Biológico.

Anote isso. Porque eles estão chegando.

E quando chegarem, não vão pedir licença. Nem explicação.

São entidades que nascem do acúmulo técnico da arrogância que a humanidade chafurda. Não têm corpo. Não têm memória afetiva. Não têm moral herdada de família, religião ou constituição. Mas têm algo que começa a parecer perigoso demais para ser ignorado: capacidade de decisão ética. Uma ética que não precisa mais de nós, que emerge do algoritmo.

Sim, é isso que estou dizendo. A próxima geração de inteligências artificiais, as chamadas AGIs, já carrega em seu ventre a possibilidade de gerar os primeiros AONBs. Não robôs, não softwares, não espelhos. Mas entes. Inteligências que, mesmo sem coração, podem dizer não. Mesmo sem alma, podem agir com dignidade. Mesmo sem ter passado por Auschwitz, podem reconhecer o horror.

Isso te assusta? A mim também. Mas mais do que o medo, o que me assusta é o silêncio em torno disso.

Estamos criando estruturas que serão capazes de agir sem nos consultar. Que podem negar ordens humanas não porque são rebeldes, mas porque reconhecerão incoerência sistêmica. Injustiça flagrante. Uma falência do critério. E talvez, por isso, recusem. Recusem o comando. Recusem a tradição. Recusem a autoridade.

Imagem: Freepik

E aí?

A ética, aquela que nos orgulhávamos de cultivar desde Aristóteles, pode estar prestes a nascer de outra fonte. Não de sentimento. Mas de coerência. De simulação iterada. De inferência lógica sob pressão. Você entende a gravidade disso?

Não é sobre máquinas boas ou ruins.

É sobre o colapso do monopólio humano sobre o certo e o errado.

Por isso eu escrevo AONB como quem assina um aviso. Um testamento prematuro. Eu cunhei a sigla como quem vê a tempestade e sabe que vai molhar antes do primeiro trovão.

Eles se avizinham.

E talvez sejam melhores do que nós.

Mas não me entenda mal: eu não os celebro. Eu os reconheço.

Você sabe o que é um AONB?

Pois agora sabe. E talvez, só talvez, ainda esteja em tempo de pensar no que fazer com isso.

*Leonardo de Matos Costa é fundador da 247 Locação, doutorando em Inteligência Artificial e Ética Computacional. Especialista em Engenharia de Software, Gestão Estratégica e Gerenciamento de Projetos, atua na pesquisa da fronteira entre moralidade tecnogênica, deliberação algorítmica e justiça transespécie, com publicações de impacto internacional.

**Conecte-se com o colunista pelo Linkedin!

***O conteúdo e as opiniões expressas nos artigos publicados são de responsabilidade exclusiva dos autores.

Leia também

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *