Inovações tecnológicas e sustentabilidade
Por Michele Lins Aracaty e Silva – Economista, Escritora, Pós-doutora em Desenvolvimento Regional e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)*
De acordo com Lima; Ruzene e Silva (2015), a Inovação Tecnológica pode ser compreendida como o valor que uma estrutura pública ou privada tem em produzir novas ideias, modificar esforços em matérias comercializáveis e visualizar oportunidades, agregando ligar a inovação tecnológica com o ato de gerar ganhos e valores, sempre quase, voltada à questão financeira.
Para Rocha (1997), inovar em países em desenvolvimento é um desafio. No caso do processo no Brasil, propõe a realização de uma prospecção tecnológica a fim de definir “tecnologias-chave” para o país,
tanto para explorar novas oportunidades quanto para atender aos requisitos atuais de capacitação tecnológica.
Thiollent (1994) também encontra uma interface com nossa realidade, quando o autor ressalta que inovação tecnológica antes de tudo deve tratar de introduzir a melhor técnica ou forma de organização no contexto produtivo, com efeitos positivos avaliados por meio de critérios de rentabilidade econômica e de critérios sociais a ambientais.
De acordo com Casagrande Jr. (2004), a política de sustentabilidade, mediante a implantação de metodologias eco-inteligentes, da educação ecológica, de incentivos fiscais para produção “verde” e legislação ambiental rigorosa, incentiva a inovação tecnológica e abre novos mercados.
Ainda para o autor (2004), não há dúvidas de que as oportunidades de desenvolver novas tecnologias são grandes em um país que necessita de soluções tecnológicas apropriadas para resolver problemas relevantes tais como: tratamento de lixo, saneamento básico bem como da necessidade de desenvolvermos novas fontes de energia, que sejam ao mesmo tempo, eficientes, menos agressivas ao meio ambiente e renováveis.
Ademais, o autor (2004) frisa que os processos de eficiência que podem economizar energia e recursos, diminuir poluição, aumentar produtividade com distribuição equitativa de renda e evitar desperdício de capital passam pela Educação e Inovação Tecnológica norteadas pela conservação ambiental.
O autor foca sua análise no potencial da Biotecnologia e frisa que no Brasil precisamos de mais incentivos às pesquisas cientificas com o propósito de transformar elementos da biodiversidade em produtos de
mercado atendendo demandas das áreas de medicamentos, alimentos, cosméticos, fertilizantes, solventes e pesticidas naturais (2004).
Reforça ainda que mudanças em design de produto, a aplicação da tecnologia da informação em controle e medição, a utilização de novos materiais de baixo impacto ambiental, o aproveitamento de materiais reciclados, a agregação de valor a resíduos (emissão zero), o uso de substâncias de base natural e capacitação de trabalhadores conscientes do processo em que estão inseridos, são a plataforma de um desenvolvimento tecnológico ambientalmente saudável que podem diminuir nossa “pegada ecológica” (2004).
Bastos (1998) nos apresenta a necessidade de investimentos no que ele define como Educação Ecológica. Acerca da Educação Tecnológica, constitui relevante instrumento para uma revisão do papel da técnica nas sociedades industrializadas e dos agentes de Inovação Tecnológica.
Por fim, a interação entre Inovação e Educação Tecnológica, ajustada à nossa realidade e associada aos princípios do desenvolvimento sustentável, é o que poderíamos chamar de Inovação Tecnológica
Sustentável. Esta pode acontecer via estratégias de transição construídas sob uma plataforma de práticas interdisciplinares. Assim como, através de esforços interinstitucionais, para haver uma ecologização de órgãos públicos de educação, sociedade civil e iniciativa privada. O incentivo a parcerias deve buscar a formação de agentes de transformação e a implantação de processos sustentáveis (CASAGRANDE JR., 2004).
Para Câmara (2023), com o crescente impacto das mudanças climáticas e o aumento das preocupações com a degradação do ecossistema, a Tecnologia Sustentável se tornou uma aliada na busca por respostas
para os desafios globais a partir de projetos de conservação, como a monitorizaçãoda biodiversidade, o controle da poluição e o mapeamento de áreas de risco ambiental.
Ainda para a autora (2023), a Tecnologia Sustentável também oferece oportunidades para a inclusão social e econômica mediante projetos de energias renováveis e iniciativas de Economia Circular que
impulsionam a criação de Empregos Verdes contribuindo para o desenvolvimento sustentável bem como para a redução das desigualdades socioeconômicas regionais em regiões carentes como a Amazônia.
De acordo com Mangabeira apud Minev (2025) precisamos ter visão de prosperidade para a região, olhar para 2030. Levar emprego, empreendedorismo e economia próspera. O desmatamento é o subproduto de um sistema muito ruim, com muita informalidade. Temos que encontrar soluções econômicas, sociais e políticas para a prosperidade da região.
Ainda para o autor (2025), apud Cenamo, a tecnologia pode atender os desafios de logística, desenvolvimento sustentável, biotecnologia e preservação das espécies de flora e fauna da região.
Temos o capital ambiental e o de conhecimento, precisamos fazer convergir esses dois patrimônios em potencial para o Brasil. É preciso complementar conhecimentos em laboratórios e nossa experiência local acumulada. Acredito que vai haver demanda e interesse crescentes de pessoas e instituições em colocar seus esforços nas soluções sociais e ambientais.
Ademais, a Finep (2024), estabeleceu os seguintes critérios para o Fomento de Iniciativas de Ciência, Tecnologia e Inovação na Amazônia: Impacto Local e Regional; Alinhamento com prioridades dadas pelo
Estado Brasileiro; Soberania; Interdisciplinaridade e diálogo de saberes; Inserção de Profissionais da região na região; Bioeconomia; Impacto Econômico; Inovação; Infraestrutura Científica; Cooperação e Redes; Inclusão e Equidade; Escala e Replicabilidade; Integração de Saberes; Sustentabilidade e Monitoramento e Avaliação.
Acerca do monitoramento ambiental, os drones oferecem a vantagem de realizar o trabalho dos satélites, mas com a capacidade de voar próximo às copas das árvores. No futuro, espera-se que também
substituam a coleta manual de dados, explorando o interior das florestas de maneira rápida e eficiente.
Em ambos os casos, a qualidade das imagens e a quantidade de informações obtidas são superiores aos
métodos tradicionais e a um custo mais baixo (JOKURA, 2021).
Segundo Alves (2023), na Amazônia, os drones são utilizados para o monitoramento, prevenção e combate a crimes ambientais. Através do trabalho do ICMBIO foi identificado que os principais problemas enfrentados nas áreas protegidas da Amazônia incluem criar novas clareiras na floresta para pastagem, a caça e captura ilegal de animais silvestres, e a exploração irregular de madeira e minerais valiosos, como ouro e tantalita, usados na indústria eletrônica.
Conforme o INPE (2024), outras ferramentas importantes são as voltadas ao geoprocessamento e Sistemas de Informação Geográfica (SIG), usadas para coletar, analisar e visualizar dados geográficos, auxiliando na tomada de decisões sobre a gestão de recursos naturais.
Permitindo, assim, a criação de mapas detalhados que mostram a distribuição de habitats, espécies ameaçadas e áreas de desmatamento, facilitando a identificação de regiões prioritárias para conservação.
Cita-se ainda o uso de Inteligência Artificial e Machine Learning.
Os algoritmos de IA e aprendizado de máquina são empregados para analisar grandes volumes de dados ambientais, identificando padrões e tendências que podem não ser facilmente percebidos por humanos.
Eles são utilizados para prever mudanças climáticas, monitorar espécies ameaçadas e otimizar esforços de restauração ecológica (INPE,2024).
De acordo com Casagrande Jr. (2004), a inovação tecnológica constitui elemento gerador de mudanças, representando esperança, novidade, desafio para alguns poucos e medo, risco, insegurança, perigo e instabilidade para a maioria, principalmente para os conservadores.
Inteligência Artificial (IA) e Proteção da Amazônia
A inteligência artificial (IA) é uma das tecnologias mais promissoras e desafiadoras da atualidade. Ela consiste em qualquer inteligência semelhante à humana exibida por um computador, robô ou outra máquina, capaz de aprender com exemplos e experiências, reconhecer objetos, compreender e responder à linguagem, tomar decisões e resolver problemas (FRANÇA, 2023).
Ainda para o autor (2023), além de facilitar a nossa vida, a IA também pode ter um papel fundamental na sustentabilidade ambiental das organizações. Neste artigo, vamos explorar como a IA pode contribuir
para reduzir os impactos negativos e aumentar os benefícios positivos
das atividades humanas no meio ambiente.
Ainda para o autor (2023), a IA pode auxiliar na conservação da biodiversidade e dos ecossistemas, fundamentais para o equilíbrio do meio ambiente e para a sobrevivência de todas as formas de vida. Conforme podemos observar na figura a seguir:

De acordo com Altino (2004), fiscalizar e combater o desmatamento em uma região extensa e complexa como a Amazônia demanda planejamento e ações em diversas frentes. Pois, existe uma quantidade
relevante de informações e dados descentralizados. Neste contexto, a Inteligência Artificial é apontada como imprescindível na produção de mapas, identificação de áreas vulneráveis e rastreio de garimpos e madeireiras ilegais, por exemplo. Porém, alerta que a tecnologia consome muita energia e fomenta a exploração mineral, mas, segundo especialistas, traz mais benefícios do que prejuízos.
Para Mangabeira (2020), algumas iniciativas que recorrem às inovações e tecnologias para a preservação e monitoramento da floresta como satélites, radares, drones e inteligência artificial contribuem para
o desenvolvimento sustentável da população local para o empreendedorismo e a prosperidade econômica.
Campos (2024) apresenta a Inteligência Artificial (IA) como uma ferramenta revolucionária, capaz de promover a sustentabilidade e a eficiência na gestão de recursos naturais. Utilizando algoritmos avançados e processamento de grandes volumes de dados, a IA pode transformar
práticas agrícolas, energéticas e industriais, promovendo uma gestão mais sustentável e eficiente dos recursos naturais.
Ainda segundo o autor (2024), a aplicação da IA na gestão de recursos naturais vai além da eficiência técnica, abordando também aspectos éticos e econômicos uma vez que, sistemas de IA já demonstraram significativos resultados na redução de desperdícios e na melhoria da eficiência energética, integrando e analisando dados ambientais para promover uma agricultura sustentável e uso preciso de recursos hídricos.
O uso da IA pode ser aplicado em diferentes setores, como a agricultura, eficiência energética e processos industriais, destacando tanto as Inovações Tecnológicas quanto os desafios éticos e regulatórios (CAMPOS, 2024).
Já Smith (2023) explica que a Inteligência Artificial pode ser a chave para a preservação da floresta amazônica, em especial, no que tange ao desmatamento, que continua sendo um problema crítico. O desmatamento desenfreado ameaça desequilibrar o ecossistema global, tornando urgente a implementação de estratégias eficazes para sua contenção.
A colaboração entre organizações de pesquisa e tecnologia está se mostrando essencial para desenvolver soluções inovadoras que possam monitorar e combater a destruição da floresta.
De acordo com Souza et al., (2024), as iniciativas e projetos de conservação ambiental mediados pelo uso de tecnologias demonstram um potencial significativo para monitorar, proteger e restaurar ecossistemas
críticos como a Floresta Amazônica. A utilização de ferramentas avançadas de inteligência artificial, análise de dados e tecnologia em nuvem permite um acompanhamento mais preciso e rápido do desmatamento e da perda de biodiversidade, facilitando a implementação de medidas de conservação eficazes.
Para Souza, et al., (2024), o uso de tecnologias em regiões sensíveis, como a Amazônia, deve ser conduzido com respeito aos direitos das comunidades indígenas e locais. Essas comunidades frequentemente possuem um profundo conhecimento sobre os ecossistemas que habitam, e seu envolvimento nos projetos de conservação pode ser inestimável. As iniciativas tecnológicas devem, portanto, respeitar os direitos dessas comunidades, incluindo seus direitos sobre a terra e os recursos naturais, e garantir que suas vozes sejam ouvidas e consideradas nos processos de tomada de decisão.
Segundo a Jornada Amazônia (2024), a aplicação de IA em projetos na região amazônica é benéfica por elevar a capacidade de analisar grandes volumes de dados de forma rápida, identificar padrões ambientais, e prever impactos de eventos como desmatamentos e secas. Ademais, agiliza o tempo de análise, permitindo ações mais rápidas, precisas, além de facilitar a integração de informações de diversas fontes, aumentando a assertividade das decisões e a eficácia das estratégias de preservação e a floresta em pé.
Considerações finais
Ao longo das últimas décadas, as Inovações Tecnológicas foram primordiais para o amadurecimento da sustentabilidade, contribuindo para impulsionar a eficiência energética, para a redução dos impactos ambientais, bem como na identificação de produtos e serviços mais sustentáveis.
Diversas ferramentas de Inteligência Artificial (IA) já vêm demonstrando como o seu potencial transformador pode auxiliar os países-membros da ONU no alcance das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
No contexto amazônico, a Inteligência Artificial já está sendo usada para monitorar e proteger via satélite os desmatamentos, as queimadas, as mudanças no padrão de vegetação e no acompanhamento da área urbana possibilitando comparar histórico de cobertura vegetal facilitando a implementação de medidas assertivas e eficazes.
Contudo, para que essas iniciativas sejam plenamente eficazes, é essencial considerar os aspectos jurídicos envolvidos no uso dessas tecnologias, assegurando que a coleta, armazenamento e utilização dos dados respeitem os direitos e a privacidade dos envolvidos, além de atenderem
a legislação ambiental vigente.
Por fim, o futuro da preservação da Amazônia depende de um esforço conjunto que combine Inovação Tecnológica com um compromisso ético e regulatório robusto, sendo essencial a colaboração entre
governos, empresas, universidades, centros de pesquisa e a sociedade civil uma vez que: “sem capital e nem ciência, não existe inovação nem geração de riqueza” (SILVA, 2025).
* Michele Aracaty é Economista, Escritora, Pós-doutora em Desenvolvimento Regional, Docente do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e atual presidente do Conselho Regional de Economia do Amazonas e Roraima (Corecon – AM/RR).
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