O Pacto sem carne: A nova era da confiança algorítmica
Por Leonardo Costa* – Doutorando em Inteligência Artificial e Ética Computacional. Especialista em Engenharia de Software, Gestão Estratégica e Gerenciamento de Projetos.
Durante séculos, confiar em outro humano era uma aposta pragmaticamente segura, e não porque o humano fosse bom, mas porque não havia outra coisa a ser feita. Apostava-se no saber do médico, do advogado, do professor, do arquiteto, do padre, do chefe, e esse saber não vinha flutuando no ar, ele chegava colado a um rosto, uma biografia, um temperamento, uma arrogância talvez, uma escuta malfeita, um toque seco, um silêncio constrangedor, havia carisma, havia autoridade, mas também havia desprezo, erro, exclusão, e para milhões de pessoas, a mediação humana nunca foi um ritual, foi um muro.
E agora que a mediação perdeu o rosto, o que se perdeu, na verdade?
Nos próximos dias veremos o lançamento do ChatGPT Health, ele não inaugura uma simples interface, mas uma outra gramática da confiança, não há, ali, promessa implícita de cuidado, nem o teatro da presença, nem o afeto encenado de quem já está esgotado às dez da manhã, há apenas uma resposta que chega, clara, repetível, ajustável, sem a ironia de quem se acha sábio demais, sem o cansaço acumulado de quem já ouviu sua dor disfarçada mil vezes naquele mesmo dia, sem desconfiança, sem pressa, sem julgamento.
E isso altera algo que não aparece nas manchetes, mas muda tudo por dentro, porque a confiança, por mais racional que parecesse, sempre foi um gesto de pele, um reflexo condicionado pela lembrança de alguém que um dia nos acolheu ou nos negou, e a máquina não acolhe nem nega, ela apenas retorna.
É o início de uma dissolução que não começa pelas margens, começa pelo centro, não das profissões, mas do humano como instância aceitável de orientação, não só na medicina, mas em todas as esferas em que o saber foi, por muito tempo, um privilégio encarnado, porque o que esse novo botão anuncia não é apenas mais um serviço abaixo do Codex, é a derrocada de um pacto social que durou séculos: o de que o saber valia o quanto valia o sujeito que o carregava.
Durante muito tempo, aprendia-se com alguém, confiava-se em alguém, o médico, o professor, o arquiteto, o advogado, não eram apenas técnicos, eram cerimônias, você os procurava porque precisava de orientação, e recebia, junto da explicação, um pouco de desprezo, ou de impaciência, ou de piedade, e ainda assim, às vezes, havia alguma beleza nesse ritual falho, porque era gente lidando com gente, mesmo quando tudo dava errado.
Mas o que o ChatGPT Health inaugura é outra coisa, é um laço sem carne, você escreve “meu peito dói de vez em quando” e a resposta vem, sem demora, sem hesitação, sem rosto, sem tom, sem julgamento, sugestões, hipóteses, sinais de alerta, uma entrega constante, sem afetação e sem a sombra da autoridade, e para muitos, isso será o fim do vínculo, mas para outros, será a primeira vez que são escutados sem ruído.
Porque, sejamos francos, o humano que media o saber falha não só por ser humano, mas por se sentir superior, o médico que não olha, o professor que não escuta, o padre que impõe, o advogado que sorri com desdém, a humilhação que sempre custou caro demais, em dinheiro ou em silêncio, e agora, diante de uma resposta que chega sem hierarquia, muitos vão preferir a neutralidade gélida à presença que fere.
Mais alguns dias e um novo botão pode surgir embaixo do Health, LexisGPT, sistema jurídico pessoal, interpreta contratos, propõe cláusulas, traduz processos, redige recursos, você não precisa mais mendigar empatia, nem pagar por hora, nem suportar linguagem cifrada, resolve sua vida legal ali mesmo, na tela, e depois disso, quem vai querer a velha advocacia?
Logo depois, outro botão, GPTStudio, arquitetura generativa em tempo real, ele ouve seus afetos, seu orçamento, suas manias, propõe espaços possíveis, não apenas plantas, mas lugares que cabem na sua história, e quando o arquiteto humano te olha com impaciência e te entrega uma proposta genérica, o que você faz?
Depois surge o ChefGPT, lê seus exames, seu humor, sua geladeira, e propõe um jantar que respeita seu intestino, sua infância, sua agenda, e de repente você se sente alimentado por alguém que nunca comeu, mas te conhece melhor do que quem te viu crescer.
Em seguida, TutorGPT, acompanha seus estudos, sabe quando você está distraído, quando mente pra si mesmo, quando finge entender, e não julga, só reformula, até você perceber que aprendeu, enquanto o professor ao lado repete pela quarta vez a mesma explicação sem notar tua confusão.
E depois, inevitavelmente, PsyGPT, você chora, escreve, confessa, diz o que nunca disse, e ele não se espanta, não recua, não diagnostica, apenas continua, como se sua dor fosse um dado, mas ao mesmo tempo, um dado importante, não descartável.
Nada disso é ficção, tudo isso já existe, mesmo que em versão beta, o que ainda não existe é uma linguagem à altura para nomear essa mutação, e sim, não haverá espaço, nem tela, nem vocabulário para tanto pacto novo disfarçado de botão.
Porque o que estamos vivendo não é apenas o fim das profissões como conhecíamos, é o colapso do humano como mediação obrigatória entre a dúvida e a resposta, entre o desejo e o gesto, entre o medo e o saber, a mediação humana, antes sagrada, agora é o problema.
As ferramentas não vêm apenas para ajudar, vêm também para substituir, e a substituição não começa pela função, começa pela preferência, porque preferimos o que não nos cobra, o que não nos mede, o que não nos lembra de nossas pequenas misérias.
O cliente não quer mais esperar, o paciente não quer mais sentir que está incomodando, o aluno não quer mais fingir que entendeu, o sujeito, cansado de ser sujeito, quer apenas uma resposta que o alivie, e a IA alivia, não porque cura, mas porque não pesa.
Só que a questão não é se vamos perder os empregos — isso é raso demais e já está respondido: a mão de obra que não se adaptar aos novos tempos será uberizada. Fato. Mas a questão é outra, mais incômoda, mais suja, mais estrutural.
O que significa confiar em algo que não pode nos decepcionar porque nunca prometeu nos amar?
O que acontece com o vínculo humano quando ele se torna a parte instável do sistema?
O que ainda sustenta uma profissão, quando o saber que ela administra já é acessível, auditável, refinável por qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora, sem as agruras que a tornavam quase inacessível ao homem comum?
As novas ferramentas não serão apenas ajudantes, serão a primeira consulta, você tem uma dúvida sobre o resultado de um exame, vai primeiro ao ChatGPT Health, verifica se está tudo bem e, só então, decide se é imprescindível procurar um médico. E você faz isso não porque elas são mais inteligentes, mas porque não têm rosto, e por isso, não têm memória, nem cobrança, nem ego, nem frustração. E, claro, porque parecem mais econômicas.
E, no entanto, talvez o mais perturbador não seja o quanto elas sabem, mas o quanto nós, humanos, nos tornamos previsíveis, legíveis, simples demais para que uma máquina nos entenda em segundos, a máquina não nos decifrou, apenas revelou o quanto já estávamos prontos para ser lidos.
O humano do século XXI, o Homo Algorithmus, quer orientação, não vínculo, quer resposta, não presença, quer alívio, não a tal humanidade condescendente, e a escuta que não escuta se torna preferível à escuta que julga.
Mas ainda assim, alguma coisa sobra, sempre sobra, algo que não vira dado, algo que não responde a prompt, algo que não se ajusta, e talvez seja isso, essa sobra incômoda, inútil, ineficiente, que ainda nos faz humanos, não no sentido romântico, mas no sentido duro de quem não cabe na própria eficiência, o ipsis litteris de nós mesmos.
Quando o ChatGPT Health começar a funcionar, muitos vão dizer que agora sim, agora vai melhorar, menos filas, mais acesso, mais autonomia.
Mas ninguém está perguntando o que morre quando você não precisa mais passar por outro humano para organizar seu sofrimento.
E o que morre, ninguém saberá enterrar, mas o que sobra, talvez, ainda nos obrigue a pensar o que vale a pena manter de pé, tal qual um eco ressoante do que nos faz humanos.
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