Especialistas apontam desafios de valorização profissional e sustentabilidade criativa diante do avanço da IA
Debate no Fórum da Internet no Brasil discutiu impactos da inteligência artificial sobre direitos autorais, trabalho cultural e regulação digital
Os impactos da inteligência artificial (IA) sobre o trabalho criativo, os direitos autorais e a sustentabilidade econômica da produção cultural estiveram no centro dos debates da segunda sessão principal do 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB16), realizado em Belém (PA). O evento segue até sexta-feira (29), no Hangar Convenções & Feiras da Amazônia.
A discussão reuniu pesquisadores, representantes do governo federal, profissionais da cultura e especialistas em direitos digitais para debater os efeitos do avanço das plataformas de IA sobre artistas, jornalistas, produtores culturais e demais trabalhadores da economia criativa.
O debate ocorreu em um contexto marcado pela expansão acelerada dos sistemas de inteligência artificial generativa, que dependem de grandes volumes de dados e conteúdos disponíveis na internet para treinamento e desenvolvimento de novos materiais automatizados.
IA amplia possibilidades, mas gera preocupação entre criadores
Durante a sessão, o pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), Leonardo Foletto, afirmou que os atuais sistemas de inteligência artificial foram treinados a partir de décadas de produção cultural e informacional publicada online.
“Os sistemas de inteligência artificial já engoliram praticamente toda a internet”, declarou.
Segundo os participantes, embora essas tecnologias ampliem possibilidades criativas e reduzam barreiras de entrada para novos produtores, também levantam questionamentos sobre remuneração, reconhecimento profissional e sustentabilidade financeira de quem produz conteúdo.
O mediador da sessão foi o conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), Rafael Evangelista.
Brasil ocupa posição estratégica no consumo de IA
O jornalista Lucas Leffa, integrante da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), destacou que o Brasil está entre os maiores usuários globais de ferramentas de inteligência artificial generativa.
“O Brasil é o terceiro país que mais envia mensagens diárias para o ChatGPT. São cerca de 140 milhões de mensagens todos os dias”, afirmou.
Segundo Leffa, o elevado nível de conectividade da população brasileira também transforma o país em um espaço estratégico para grandes empresas de tecnologia, tanto pelo mercado consumidor quanto pelo volume de dados produzidos diariamente.
O debate também abordou discussões em andamento no governo federal relacionadas ao Projeto de Lei 2338/23, que trata da regulação da inteligência artificial no Brasil.
De acordo com Leffa, uma das propostas em análise envolve mecanismos de gestão coletiva de direitos autorais e modelos de remuneração relacionados ao uso de obras culturais no treinamento de sistemas de IA.
“A gente começa a encontrar caminhos que podem ser aplicáveis à nossa realidade”, disse.
Trabalhadores da cultura relatam impactos no mercado
Os efeitos da automação sobre setores criativos específicos também foram discutidos durante a sessão.
A artista visual e diretora de comunicação da União Democrática dos Artistas Digitais, Ana Maria Sena, relatou mudanças nas áreas de animação e audiovisual, com redução de equipes e intensificação das rotinas de trabalho.
“Equipes de filmes em que existiam quatro pessoas trabalhando, hoje em dia, só tem uma pessoa”, afirmou.
Segundo ela, a adoção acelerada das ferramentas de IA tem provocado aumento de pressão profissional, retrabalho e desgaste emocional entre trabalhadores do setor.
A atriz e diretora colegiada da Associação de Dubladores Dário de Castro (ADCC), Adriana Torres, também chamou atenção para os impactos sobre a dublagem brasileira.
“Como essa tecnologia vai ser implementada no nosso setor enquanto uma mera ferramenta de apoio, e não algo que possa efetivamente substituir o trabalho humano?”, questionou.
Ela defendeu que a atuação humana continua essencial para adaptar referências culturais, linguagem e humor de produções internacionais ao público brasileiro.
Direitos autorais e remuneração coletiva entram em debate
Ao longo da discussão, os participantes defenderam a necessidade de criação de modelos econômicos capazes de redistribuir parte do valor gerado a partir do uso massivo de conteúdos culturais por plataformas de inteligência artificial.
Leonardo Foletto argumentou que o debate não deve se restringir apenas ao endurecimento das regras de copyright, mas buscar mecanismos coletivos de sustentação econômica.
“Cobrar de quem extrai pra sustentar quem produz”, afirmou.
Segundo o pesquisador, o atual modelo de direitos autorais enfrenta dificuldades para responder às novas dinâmicas da economia digital baseada em IA.
“O copyright deixou de ser suficiente para sustentar quem cria”, declarou.
A advogada e coordenadora jurídica da Squid Creators, Bruna Oliveira, ressaltou que a apropriação automatizada de conteúdos culturais pode gerar impactos econômicos e simbólicos para a produção artística nacional, especialmente quando plataformas internacionais utilizam materiais brasileiros sem retorno proporcional aos criadores.
Inclusão digital e conectividade na Amazônia
Além dos debates sobre inteligência artificial, o FIB16 também promoveu discussões relacionadas à conectividade e inclusão digital na Amazônia.
Uma das sessões apresentou reflexões sobre um estudo desenvolvido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), em parceria com organizações locais e movimentos populares da região.
Participaram representantes do Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA), Rede Conexão Povos da Floresta, Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Quilombolas (CONAQ), entre outras entidades.
Programação segue até sexta-feira
A programação do Fórum da Internet no Brasil continua nesta quinta-feira (28) com o 3º Encontro Nacional de Jovens na Governança da Internet e debates sobre plataformas digitais, proteção de direitos e responsabilidade das empresas de tecnologia.
As inscrições para participação online permanecem abertas no site oficial do evento: https://fib.cgi.br/pt/agenda.
A transmissão das atividades ocorre pelo canal oficial do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) no YouTube.
Redação i9Brasil.
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