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Comércio Agêntico: Quando o querer vira infraestrutura

*Por: Leonardo Costa

A próxima guerra das Big Techs talvez não seja mais pela sua atenção. Essa guerra, de algum modo, já foi vencida. Elas sabem onde olhamos, quanto tempo permanecemos, que imagem nos captura por dois segundos a mais, que medo nos faz clicar, que vaidade nos faz voltar. O novo território é mais fundo. Mais íntimo. Mais difícil de perceber.

A próxima disputa será pelo direito de comprar por você.

Existe um tipo de mudança que acontece devagar demais para ser percebida enquanto ocorre. A escrita foi assim. O crédito foi assim. A televisão também. Nenhuma dessas tecnologias chegou pedindo licença para alterar a forma humana de existir. Elas apenas se instalaram. Primeiro como conveniência. Depois como hábito. Por fim, como condição. Quando percebemos, já não era mais possível imaginar o mundo sem elas.

Agora, sem alarme, sem data inaugural, sem manifesto histórico que anuncie o acontecimento, o ato de comprar começa a deixar de ser um gesto humano direto. Ele se desloca. Sai da mão. Sai do clique. Sai, pouco a pouco, da consciência.

A Stripe, uma das empresas centrais da infraestrutura global de pagamentos, informou que negócios rodando em sua plataforma movimentaram US$ 1,9 trilhão em 2025, algo equivalente a 1,6% do PIB mundial. Na mesma carta anual, a empresa tratou da evolução do comércio agêntico, isto é, a passagem progressiva da compra humana para sistemas de inteligência artificial capazes de pesquisar, escolher, negociar e executar transações em nome do usuário.

A palavra parece técnica. Não é. Ou melhor, é técnica apenas na superfície. Por baixo dela há uma alteração muito mais grave: a transferência parcial da vontade para uma infraestrutura computacional.

A IA começa facilitando. Preenche campos, organiza dados, reduz pequenas fricções. Nada muito diferente do que navegadores já fazem quando completam senhas, endereços e cartões. Depois ela ajuda a encontrar. Em seguida, passa a lembrar preferências, hábitos, orçamentos, recorrências. Mais adiante, compra dentro de limites definidos. No estágio mais inquietante, antecipa a necessidade e executa a compra antes que o desejo se apresente como pensamento. O produto chega. A decisão já aconteceu. Você é informado depois.

Entre o preenchimento automático de um formulário e uma compra realizada antes do querer consciente existe uma distância que não é apenas técnica. É ontológica.

Deixa eu chegar mais perto do incômodo.

Quando Sartre escreveu que a existência precede a essência, ele não estava produzindo uma frase bonita para camiseta de estudante melancólico. Estava dizendo algo brutal: o ser humano não nasce pronto, não possui uma natureza fechada, não carrega um programa anterior que determine aquilo que será. Ele se faz na escolha. E a escolha, aqui, não é ornamento moral. Não é detalhe psicológico. É o lugar em que a existência humana se rasga e se constitui.

Escolher não significa apenas selecionar uma opção entre outras. Escolher é suportar a própria indeterminação. É desejar, hesitar, comparar, recuar, errar, justificar, arrepender-se, insistir. O sujeito não aparece antes desse movimento. Ele aparece nele.

O comércio agêntico, em seu estágio mais avançado, não melhora a escolha. Ele a elimina como acontecimento.

A compra acontece antes da deliberação. O desejo é previsto, modelado, encaixado em padrões anteriores, executado por sistemas que não precisam perguntar a si mesmos por que querem, porque não querem. Apenas calculam. Apenas inferem. Apenas operam.

Você recebe uma notificação dizendo que algo foi resolvido.

A palavra “resolvido” talvez seja a mais perigosa de todas. Porque ela carrega uma promessa doce, quase maternal: menos esforço, menos ruído, menos tempo perdido. Só que a vida humana nunca foi feita apenas de resolução. Há coisas que nos formam justamente porque não se resolvem depressa. A fricção não é sempre um defeito. Às vezes ela é o último espaço em que a liberdade respira.

No ato banal de comprar havia, até aqui, um pequeno intervalo humano. O preço aparecia. A necessidade era confrontada. A vontade encontrava a conta bancária. A publicidade encontrava um resto de lucidez. O impulso podia falhar. A pessoa podia fechar a aba. Podia decidir que aquilo não era necessário. Podia sentir vergonha do próprio desejo. Podia voltar no dia seguinte. Podia comprar mesmo assim e se arrepender depois.

Esse intervalo parecia irrelevante para os engenheiros da eficiência. Mas talvez fosse ali que alguma coisa de nós ainda sobrevivia.

A linguagem da eficiência não consegue captar isso. Ela só sabe dizer: menos cliques, menos atrito, mais conversão. O problema é que nem toda fricção é atraso. Algumas fricções são formas de consciência. Eliminar o atrito da compra pode parecer uma vitória contra o incômodo, mas também pode ser uma vitória contra a hesitação, contra o juízo, contra esse pequeno tribunal interior onde o desejo ainda era obrigado a comparecer antes de virar consumo.

Pense no que significa, historicamente, delegar.

Houve um tempo em que lembrar era uma função vital. Lembrar onde havia comida. Quem devia o quê. Qual planta curava. Qual planta matava. A escrita deslocou parte da memória para fora do corpo. Algo que vivia na carne, na fala, no rito, passou para a superfície externa dos signos. Ninguém deixou de ser humano por escrever. Mas algo mudou no que significava saber.

Depois veio o crédito. A promessa saiu da palavra e entrou no papel, no contrato, no registro, na assinatura, no banco. O futuro foi transformado em cálculo. A confiança virou procedimento. A dívida ganhou forma administrativa. Mais uma vez, a vida ficou mais eficiente. Mais uma vez, algo íntimo foi transferido para uma estrutura impessoal.

A modernidade é, em grande parte, a história das nossas externalizações. Externalizamos a memória, o cálculo, a força, a localização, a atenção, a reputação, a sociabilidade. Agora começamos a externalizar o querer.

E aqui a diferença é grave.

Memória e cálculo são funções importantes, mas ainda podem ser compreendidas como instrumentos. A mente usa a agenda, a planilha, o GPS, o buscador. Há perda, claro. Há dependência. Há empobrecimento de certas capacidades. Mas o desejo ocupa outra região. Ele não é apenas uma ferramenta interna. Ele participa da constituição do sujeito.

Quando alguém quer algo, mesmo algo pequeno, uma mochila para o filho, um livro que talvez nunca leia, uma passagem para uma cidade onde espera reencontrar alguma versão menos gasta de si, existe ali uma articulação entre passado, falta, expectativa e mundo. O querer revela. Nem sempre de modo nobre. Muitas vezes revela nossa pobreza interior, nossa vaidade, nossa ansiedade, nossa fome de pertencimento. Mas revela.

Quando um sistema antecipa esse querer e o executa antes que ele atravesse a consciência, o que exatamente resta?

Não estou argumentando contra a tecnologia. Esse tipo de frase defensiva já se tornou quase obrigatório, como se qualquer crítica ao automatismo precisasse antes jurar fidelidade ao progresso. Não é esse o ponto. Também não estou dizendo que o nível máximo de delegação comercial já domina nossa vida cotidiana. Não domina. A própria discussão ainda está em construção, entre protocolos, plataformas, agentes, interfaces e modelos de governança.

Mas a direção importa.

E a direção é suficientemente clara: substituir a deliberação humana pela inferência estatística do comportamento histórico. Você não escolherá. Confirmará. E, em algum momento, talvez nem isso. O sistema saberá que você costuma comprar determinado produto em determinado ciclo, que prefere certo preço, que aceita determinada marca quando está cansado, que cede mais facilmente depois das vinte e duas horas, que não compara quando a entrega é rápida, que chama de necessidade aquilo que ontem ainda era apenas ansiedade.

Não se trata mais de publicidade. A publicidade ainda tentava persuadir você. A nova infraestrutura tenta operar antes de você.

A publicidade disputava o desejo. O comércio agêntico pretende administrá-lo.

A Stripe não é uma empresa ingênua olhando para o futuro com olhos de laboratório. Ela está no encanamento do dinheiro digital. Em 2025, a empresa apresentou o Agentic Commerce Protocol, desenvolvido com a OpenAI para permitir fluxos programáticos de comércio entre agentes de IA e empresas. Em dezembro do mesmo ano, lançou a Agentic Commerce Suite, voltada a tornar produtos legíveis e compráveis por agentes. Não estamos diante de ficção especulativa. Estamos diante de uma infraestrutura sendo montada protocolo por protocolo, API por API, token por token.

A questão mais urgente, portanto, não é apenas técnica. Nem apenas jurídica. Nem apenas econômica, embora todas essas dimensões importem. A pergunta mais funda é antropológica.

O que acontece com o sujeito quando uma de suas funções constitutivas mais básicas, querer e decidir, migra para uma infraestrutura que opera fora da consciência?

Talvez a resposta confortável seja dizer que sempre haverá consentimento. O usuário autorizará. Definirá limites. Poderá cancelar. Essa resposta tranquiliza porque preserva a fantasia liberal de um indivíduo soberano diante da máquina. Mas essa soberania já está ferida há muito tempo. Quem define limites dentro de uma arquitetura desenhada para antecipar comportamento não está exatamente no comando. Está apenas negociando com um sistema que o conhece pela repetição de seus próprios rastros.

E há algo ainda mais incômodo. Talvez muitos queiram isso.

Talvez a delegação do desejo não avance apesar do usuário, mas por sua solicitação cansada. Porque escolher cansa. Comparar cansa. Decidir cansa. Ser livre cansa. A liberdade moderna sempre veio embalada em sofrimento miúdo: a obrigação de preferir, avaliar, assumir, perder alternativas. O agente de IA aparece, então, como alívio. Não como tirano. Como mordomo. Como cuidador. Como silêncio depois do excesso.

É assim que certas perdas chegam. Não como violência, mas como conforto.

Um dia você percebe que já não sabe mais se queria aquilo ou se apenas aceitou a versão de si mesmo que o sistema aprendeu a oferecer. E talvez nem perceba. Porque a operação foi suave. Porque nada doeu. Porque a caixa chegou no prazo. Porque o pagamento passou. Porque a vida continuou.

Mas alguma coisa terá mudado.

A escolha, antes, era um acontecimento imperfeito. Agora pode virar uma camada invisível da infraestrutura. E quando a escolha vira infraestrutura, ela deixa de aparecer como escolha. Torna-se ambiente. Torna-se fluxo. Torna-se normalidade. O humano não é abolido. Seria simples demais. Ele é rebaixado a supervisor eventual de processos que aprenderam a funcionar sem sua presença plena.

Essa talvez seja a mutação mais difícil de nomear. Não a substituição do homem pela máquina, imagem velha, teatral, quase infantil. O que está em curso é mais discreto: a redistribuição operacional da vontade entre humanos e sistemas não humanos. Uma parte de nós continua desejando. Outra parte é capturada, prevista, empacotada e executada por agentes que não têm mundo interior, mas produzem consequências no mundo.

Não sei se ainda teremos vocabulário moral para isso.

A ética moderna foi construída ao redor da intenção, da responsabilidade, da escolha consciente. Mas o que fazemos quando a decisão emerge de uma cadeia híbrida, feita de histórico de navegação, modelo preditivo, regra de autorização, interface conversacional, infraestrutura de pagamento e tolerância subjetiva ao conforto? Quem quis? Quem decidiu? Quem responde?

O sujeito? A empresa? O agente? O protocolo? O modelo? O mercado?

A pergunta parece abstrata até o momento em que a compra acontece.

Não tenho certeza de que estamos preparados para uma economia em que o desejo deixa de ser apenas estimulado e passa a ser operacionalizado. Menos ainda para uma sociedade em que a vontade se torna uma variável computável dentro de sistemas de conveniência.

Mas sei que a pergunta precisa ser feita agora, antes que fazê-la pareça nostalgia de gente incapaz de aceitar o mundo novo. Porque toda infraestrutura vitoriosa possui essa crueldade: depois que se instala, ela transforma a crítica em atraso. Quem questiona parece velho. Quem hesita parece improdutivo. Quem pede pausa parece inimigo da inovação.

E talvez seja justamente por isso que ainda seja necessário hesitar.

Não para negar a técnica. Mas para lembrar que nem tudo aquilo que pode ser delegado deveria sair de nós sem resistência.

Porque quando a compra acontece antes do querer, não desaparece apenas a fricção do checkout. Desaparece uma forma específica de presença humana no mundo. A presença de quem deseja mal, deseja muito, deseja pouco, muda de ideia, se contradiz, recua, decide, erra, se arrepende e começa de novo.

Talvez essa presença nunca tenha sido eficiente, mas era nela que ainda podíamos reconhecer alguma coisa parecida conosco.

*Leonardo Costa é filósofo, pesquisador e desenvolvedor de software. Escreve sobre inteligência artificial, dados, ética, poder e transformação social, com atenção especial aos efeitos da tecnologia no Brasil e na Amazônia.

**O conteúdo e as opiniões expressas nos artigos publicados são de responsabilidade exclusiva dos autores.

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