Dia Mundial do Meio Ambiente na era da Inteligência Artificial (IA)
*Por Michele Aracaty.
O Dia Mundial do Meio Ambiente, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1972, assume um novo significado em 2026, destacando a necessidade premente de alinhar a sustentabilidade ao rápido avanço da Inteligência Artificial (IA).
O panorama é marcado por uma dualidade desafiadora: enquanto a inteligência artificial se consolida como uma ferramenta indispensável e eficaz na preservação ambiental, seu elevado consumo de energia impõe novos obstáculos ecológicos devido ao impacto ambiental gerado pela tecnologia.
Acerca do setor ambienta, há estimativas indicando que as aplicações de IA têm o potencial de agregar valor ao mercado, promover a criação de milhões de empregos voltados para a otimização de processos e incentivar a redução do desperdício.
A IA para o Bem
Celebrar o Dia do Meio Ambiente na era da inteligência artificial significa combinar conscientização prática com o uso de tecnologias avançadas para monitorar, proteger e regenerar o planeta de forma mais eficaz. Em 2026, a IA se consolida como uma aliada essencial da sustentabilidade, viabilizando análises em tempo real e automatizando iniciativas de preservação.
Práticas de IA para celebrar a data
Monitoramento e ações climáticas podem ser significativamente aprimorados com o uso de inteligência artificial. No caso da Amazônia, IA integrada a sistemas de visão computacional e imagens de satélite permite o acompanhamento em tempo real do desmatamento e de incêndios florestais, proporcionando a detecção precisa de atividades ilegais.
Além disso, a inteligência artificial também desempenha um papel fundamental na preservação da biodiversidade, ajudando a evitar a extinção de espécies. Por meio da análise de imagens captadas por armadilhas fotográficas, é possível monitorar populações de animais e fornecer dados essenciais para iniciativas de conservação.
Mapeamento de riscos: A aplicação de inteligência artificial está facilitando a identificação de áreas com alto risco ambiental, seja na sua região ou nos arredores. Além disso, a tecnologia vem sendo empregada para planejar estratégias de reflorestamento e medidas de proteção ambiental de forma mais eficiente.
Educação ambiental inteligente: A IA também tem sido utilizada para desenvolver planos de aula personalizados, criar atividades educativas e elaborar resumos sobre temáticas como impacto ambiental e sustentabilidade, contribuindo para a formação de uma consciência sustentável nas escolas.
A sustentabilidade pessoal e o consumo consciente podem ser promovidos por meio do uso de inteligência artificial, permitindo uma gestão mais eficiente dos recursos e o consumo responsável de energia e água. Essa tecnologia pode identificar e prever padrões de desperdício tanto em residências quanto em estabelecimentos comerciais, oferecendo soluções para reduzir os impactos ambientais.
Outra iniciativa importante é a reciclagem inteligente, utilizando aplicativos que, por meio de visão computacional e da câmera do celular, identificam o tipo de material e indicam a forma correta de descarte. Essa abordagem contribui diretamente para a otimização da coleta seletiva e para o desenvolvimento de um ciclo mais sustentável.
Consumo responsável pode ser promovido mediante o uso da inteligência artificial para pesquisar e apoiar empresas que adotam práticas mais sustentáveis. Isso inclui cadeias de suprimentos com menor impacto ambiental e operações alinhadas com princípios ecológicos.
Ações voltadas para limpeza e preservação ambiental também podem contar com IA, por meio do mapeamento de resíduos. Plataformas especializadas permitem identificar e registrar os locais onde ocorre o descarte irregular de resíduos, como parques, praças, praias e outras áreas públicas, facilitando a gestão e a limpeza por parte das autoridades.
No plantio de árvores, a aplicação correta da inteligência artificial em análises de solo e na seleção das espécies adaptáveis (preferencialmente nativas) contribui para uma maior taxa de sobrevivência das mudas. Além disso, o uso otimizado de adubos e sistemas de irrigação adequados assegura as condições ideais para o desenvolvimento saudável das plantas.
Externalidades negativas causadas pela própria IA (custo invisível da IA)
O treinamento e a utilização de Inteligência Artificial demandam altos níveis de energia e água, especialmente para o resfriamento adequado dos Data Centers, que são indispensáveis ao progresso tecnológico. Estudos apontam que, caso não haja uma gestão eficiente, essa tecnologia pode contribuir com até 10% adicionais nas emissões de gases de efeito estufa até o ano de 2040.
IA Verde: equilíbrio com foco no futuro
A perspectiva para os próximos anos aponta para a consolidação de uma IA Verde, focada no equilíbrio entre o avanço tecnológico com a responsabilidade ambiental, promovendo maior precisão e eficiência.
Promover uma consciência digital cada vez maior, direcionada à redução do consumo de energia nos Data Centers, com o objetivo de aumentar a transparência sobre os impactos causados e incentivar o desenvolvimento de algoritmos mais sustentáveis.
Custo Invisível da IA para o Planeta
A inteligência artificial, apesar de sua natureza imaterial, carrega um impacto ambiental significativo, representando um custo real e elevado para o planeta.
Cada pesquisa realizada em ferramentas como o ChatGPT consome aproximadamente 2,9 Wh, representando uma quantidade de energia 10 vezes maior que uma busca tradicional no Google. Isso se deve ao fato de que os data centers exigem volumes significativos de eletricidade para operar. Caso o crescimento desse uso continue, o que é provável, projeta-se que eles poderão ser responsáveis por consumir até 3% da energia global até o ano de 2030.
Além disso, esses centros de dados necessitam resfriamento contínuo, o que implica em um alto consumo de água. Estimativas indicam que, até 2027, o uso de água relacionado à inteligência artificial pode atingir a marca de 6,6 bilhões de metros cúbicos. Para completar, o processo de treinamento de modelos de IA também contribui significativamente para a emissão de toneladas de CO₂.
Em 2023, a inteligência artificial gerou cerca de 2.600 toneladas de lixo eletrônico, e projeções indicam que até 2030 esse volume poderá alcançar 2,5 milhões de toneladas anuais. Os chips e servidores utilizados pela IA dependem de metais raros, cuja extração acarreta considerável impacto ambiental.
Embora a IA tenha o potencial de ser uma aliada na transformação positiva do mundo, para que isso aconteça, seu desenvolvimento precisa ser pautado por princípios de transparência, responsabilidade e compromisso com a sustentabilidade.
É fundamental lembrar que a tecnologia deve atuar como um instrumento para transformar dados em ações concretas rumo a um futuro mais sustentável. Garantir a preservação ambiental e promover práticas responsáveis são essenciais para que as próximas gerações também possam desfrutar de um planeta equilibrado.
A celebração do Dia Mundial do Meio Ambiente na era da inteligência artificial nos lembra que o progresso tecnológico deve andar lado a lado com a preservação ambiental. Devemos utilizar o potencial das máquinas para proteger nosso ecossistema e assegurar a sobrevivência humana, evitando desequilíbrios que prejudiquem o futuro da vida na Terra.
*Michele Aracaty é Economista, Pós-doutora em Desenvolvimento Regional, Pesquisadora e Docente do Departamento de Economia e do Mestrado Profissional em Economia Aplicada (UFAM), com atuação em Políticas de Desenvolvimento Regional na Amazônia, Bioeconomia, Economia Verde e Sustentabilidade.
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