CEO da Amazônia apresenta soluções para o agronegócio sustentável
A transição dos laboratórios acadêmicos para a liderança de uma Startup de biotecnologia marca a trajetória da pesquisadora Fabiane Almeida, co-fundadora da Aqua Viridi, empresa que transforma a biodiversidade da Amazônia em soluções sustentáveis para o agronegócio.
No final de agosto, Fabiane conquistou o 1º lugar na categoria Ciência e Tecnologia do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2026 no Amazonas do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2026 pela oferta da solução baseada em microalgas amazônicas da Aqua Viridi. Em sua rotina, a empresa desenvolve farinha de microalgas para alimentação animal e bioestimulantes e biofertilizantes para a agricultura.
Formalizada em 2023 com o apoio do Sebrae, a Aqua Viridi também participou de programas da instituição como Catalisa ICT, Inova Amazônia e Empreendedor Aztec. Para Fabiane, o reconhecimento na premiação tem um significado especial por se tratar de uma empresa de base tecnológica. É um modelo de negócio que, conforme a gestora, ainda enfrenta desafios para conquistar espaço e confiança no mercado.
“Esse é um dos momentos mais importantes e que faz valer a pena toda a luta que temos diariamente para manter uma empresa de pé, especialmente uma empresa de base tecnológica. Quando a gente recebe um troféu como esse do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, isso renova as nossas forças e mostra que estamos no caminho certo”, declarou na ocasião da premiação ao Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
Fabiane Almeida possui formação em Ciências Biológicas e Administração de Empresas, MBA Executivo em Gestão de Negócios e Projetos e Doutorado em Biologia de Água Doce e Pesca Interior, com intercâmbio de pesquisa no Luxembourg Institute of Science and Technology (LIST), onde aprofundou seus conhecimentos sobre microalgas e bioindicadores de qualidade da água.
A pesquisadora acumula mais de duas décadas de atuação no estado do Amazonas, onde desenvolveu pesquisas no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Em entrevista exclusiva ao Portal i9Brasil, Almeida contou que a virada na carreira rumo ao empreendedorismo ocorreu quando a cientista e seus co-fundadores decidiram aplicar a pesquisa básica na solução de problemas concretos da região, com foco no enfrentamento aos impactos da expansão agrícola tradicional e na redução da dependência de insumos importados.
Leia a entrevista completa:
PORTAL i9BRASIL – O que representa conquistar o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios na categoria Ciência e Tecnologia, liderando uma deeptech a partir da Amazônia?
FABIANE ALMEIDA – Significa muito para mim. Esse prêmio, na verdade, tem vários significados Foi uma transição para mim tornar-me uma mulher de negócios e uma CEO. Eu ainda aprendo muito todos os dias. A Aqua Viridi está em intenso crescimento, intenso desenvolvimento diariamente. Então, ter recebido esse prêmio só reforça que eu estou realmente no caminho. Todos nós estamos e não só a Aqua Viridi, mas eu enquanto profissional porque é uma mudança grande na vida. Eu que sou uma pesquisadora… Enfim, fui professora universitária por muitos anos, ministrei aulas na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e já fui reitora na Faculdade UniNorte, em Manaus (AM).
Assim, tive uma trajetória muito grande (e tenho ainda, né?) enquanto pesquisadora. Eu ainda sou pesquisadora, ainda ministro algumas disciplinas, mas migrar para essa esfera de negócios, de ter a própria empresa,foi realmente uma transição de carreira. E receber esse prêmio é quase que uma coroação. É muito bom destacar que, além desse prêmio, há outros reconhecimentos recebidos. Fomos premiados no México, numa iniciativa de uma aceleradora irlandesa, num programa chamado Woman and Ocean Food, que é um programa só para mulheres que trabalham com economia azul, que é uma dos focos da Aqua Viridi. Também recebemos, recentemente, o segundo lugar no BNDES Garage, entre mais de 1.800 startups em todo o Brasil. Ficamos em primeiro lugar no programa Next Bio, que é um programa de colaboração bilateral entre o governo suíço e o governo brasileiro. Ficamos em primeiro lugar entre mais de dez startups e entre elas oito startups eram suíças. Vendo isso, percebemos a consistência do trabalho que a gente está executando e, obviamente, da minha evolução também enquanto CEO.
PORTAL i9BRASIL – Quem é a Fabi Almeida por trás do jaleco e dos negócios, e qual foi o ponto de virada que a fez empreender em ciência?
FABIANE ALMEIDA – Fiz mestrado no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa) e doutorado no LIST, que é o Instituto de Ciência e Tecnologia de Luxemburgo. Depois, retornei para continuar atuando aqui enquanto pesquisadora e, como disse, professora universitária por algum tempo. Sempre quis trabalhar na Amazônia, desde os dez anos de idade quis vir para cá para estudar.
Eu digo que eu me considero “minerauara” (mineira + manauara) porque já estou aqui há mais de 20 anos. Meu filho é manauara, tenho muito orgulho e gosto muito aqui do Amazonas, de Manaus. Conheço 62 municípios do Amazonas, tive a grata felicidade de visitar todos eles por intermédio da UEA, quando eu coordenei um dos programas, um dos maiores programas de interiorização da educação do Brasil.
Na época era o maior, porque a UEA levava educação para todos os municípios e eu ficava associada à pro-reitoria de interiorização e fui coordenadora dos cursos especiais na época. E isso me possibilitou conhecer todos os municípios, porque a UEA tinha cursos em todos os municípios. Então, uma trajetória realmente de estar no interior, de conhecer realmente não só o estado, não só Manaus, vamos dizer assim, que é uma capital-estado, mas conhecer a Amazônia profunda. Isso também delineou muito quem eu sou hoje enquanto presidente da Aqua Viridi.
PORTAL i9BRASIL – Como nasceu a Aqua Viridi, qual é o problema real que vocês resolvem hoje e qual é a principal tecnologia por trás do negócio?
FABIANE ALMEIDA – A Aqua Viridi nasceu de um momento bem, eu costumo dizer, “bem onírico”. Nós estávamos no Rio Negro, eu e agora os meus sócios (somos todos do mesmo laboratório, somos quatro cofundadores) e, nesse dia, estávamos conversando, tentando buscar alternativas de como poderíamos atuar em prol da Amazônia, depois de ter recebido todo esse conhecimento no Inpa. Pensávamos que, após termos tido várias oportunidades e portas abertas, em função desse conhecimento que a gente recebeu, como poderíamos devolver isso para a Amazônia, considerando que a Amazônia está aí sob forte ameaça em vários flancos, vamos dizer assim, a começar do avanço da soja, a questão da poluição por agrotóxicos e por aí vai…
E com base nesses dois problemas principais que eu listei, foi para que a Aqua Viridi veio à tona. Então a gente desenvolveu uma plataforma biotecnológica, à base de microalgas amazônicas, então as microalgas que a gente cultiva, todo o processo de bioprospecção e isolamento foi feito pela minha equipe, mais especificamente capitaneados pela nossa CTO, que é uma das minhas sócias e também é cofundadora. São cepas que já estão depositadas no Sistema de Patrimônio Genético Nacional (são cepas que nós isolamos aqui). Essas cepas são endereçadas. Esse cultivo – essa biomassa da microalga, foi desenvolvida e foi endereçada justamente para atender a esses dois problemas inicialmente. Hoje, já temos outros produtos no pipeline de desenvolvimento, mas com dois produtos que já estão sendo comercializados, já foram validados em ambiente real (Mínimo Produto Viável – MVP ok). E, agora, a gente já comercializa, que é a farinha de microalgas, como alternativa sustentável à soja, para a nutrição animal, e os bioestimulantes e os biofertilizantes para redução do uso de agroquímicos, principalmente os agroquímicos importados, porque hoje mais de 85% dos agroquímicos são importados aqui no Brasil, ou seja, o Brasil que alimenta o mundo, ele não controla o insumo que é base da sua própria agricultura.
A Aqua Viridi também quer trabalhar nessa vertente de soberania nacional.O Brasil é um país que por vocação é um país da agricultura e tal, e a gente entende que é um vetor de crescimento muito importante, um dos maiores vetores de crescimento do Brasil na atualidade é o agronegócio, mas a gente precisa desenvolver novas formas de fazer o agronegócio que sejam menos danosas para o ambiente e para a humanidade de maneira geral.
PORTAL i9BRASIL – De que forma a atuação da Aqua Viridi fortalece a bioeconomia e mostra a força da ciência produzida no Amazonas para o Brasile para o mundo?
FABIANE ALMEIDA – Em termos de impacto, a Aqua Viridi já formou mais de 30 pessoas que fizeram seus mestrados, doutorados, iniciação científica, graduação. Temos estagiários internacionais, como pessoas da Colômbia, por exemplo. Atuamos muito nessa parte de fixação e desenvolvimento de recursos humanos qualificados, porque a gente precisa desses recursos humanos para estar operando a nossa unidade de produção que fica aqui em Manaus. Além disso, impactamos indiretamente mais de seis mil pessoas com os serviços, porque temos uma vertente de serviços biotecnológicos, além, obviamente, do carbono capturado com a biomassa de microalgas.
O impacto é também tecnológico. Estamos implementando a primeira biorrefinaria de microalgas aqui na Amazônia. Já adquirimos a área onde essa biorrefinaria será implementada, recebemos uma subvenção governamental que vai financiar toda essa construção da biorrefinaria, além de investimentos do PPBio, que é o programa prioritário da bioeconomia, então tudo isso vai estruturar esse ambiente.
PORTAL i9BRASIL – Com a visibilidade e o reconhecimento do prêmio, quais são as metas de expansão e desenvolvimento tecnológico da Aqua Viridi para os próximos anos?
FABIANE ALMEIDA – Hoje a nossa capacidade produtiva é de cinco mil litros semanais, Com a biorrefinaria, almejamos chegar à escala industrial, atingindo 80 mil litros inicialmente, depois 100 mil litros semanais. Esperamos ampliar mais o nosso portfólio de produtos que, como já mencionei, tem um pipeline de produtos que ainda está em desenvolvimento. A meta é ampliar esse portfólio de produtos, ampliar o nosso impacto em termos de formação de recursos humanos, ampliar o nosso impacto em termos de número de pessoas, associações cooperativas, produtores impactados positivamente e ampliar também para mercados. Estamos também em desenvolvimento junto à Apex, que é a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos. Fomos em várias missões fora do Brasil, como em Lisboa, Suíça, México. Com apoio da Apex, vários países têm nos recebido e, desta forma, vamos pavimentando o nosso caminho para uma futura ação e trabalho, em médio e longo prazo, especialmente visando mercados como Chile e México.
PORTAL i9BRASIL – Qual mensagem ou conselho prático você deixa para outras pesquisadoras e mulheres que desejam transformar ciência em negócios de alto impacto?
FABIANE ALMEIDA – Enquanto legado, eu acho que a pesquisa básica, ela é fundamental para o desenvolvimento de qualquer nação, mas essa pesquisa básica, ela precisa dar origem a aplicações práticas, na vida diária de todas as pessoas, e foi isso que eu, junto com os cofundadores da Aqua Viridi decidimos fazer, juntar todo esse conhecimento, toda essa pesquisa básica que a gente tinha, e monetizar, mas não só monetizar, mas colocar isso a serviço da população, especialmente na Amazônia.
Entrevista feita por: Amanda Mota
Edição e publicação: Sabrina Marinho



