O Valor das Biossoluções: A Nova Fronteira da Bioeconomia Latino-Americana
Por: Daniel Goettenauer.
O avanço da bioeconomia global deixou de ser uma pauta puramente socioambiental para se consolidar como um pilar de estratégia industrial, soberania alimentar e segurança energética. Um estudo recente publicado pelo Amsterdam Data Collective (ADC) em parceria com a Novonesis, intitulado “The Value of Biosolutions: Growth and Prosperity to 2035 – Mexico Edition” (Outubro de 2026), traz dados inéditos que quantificam o impacto econômico direto e indireto das biossoluções no México e no mundo.
O relatório oferece uma base empírica e metodológica essencial para compreendermos como processos e produtos biológicos — como enzimas, culturas microbianas, biofertilizantes, probióticos e biocombustíveis — podem transformar matrizes produtivas emergentes.
Neste artigo, apresento uma síntese executiva do estudo, uma avaliação crítica de suas métricas e uma reflexão sobre as lições que o caso mexicano oferece para a América Latina.
O que são Biossoluções?
Para evitar sobreposições conceituais comuns entre “biotecnologia”, “ciências da vida” e “bioeconomia”, o estudo estabelece uma definição estrita: biossoluções são produtos biológicos (como enzimas e microrganismos) utilizados como catalisadores em processos de manufatura ou industriais subsequentes, excluindo explicitamente o setor farmacêutico.
Essa distinção foca no papel da biologia como motor da produção sustentável em setores tradicionais como agricultura, alimentos e bebidas, químicos e combustíveis.

Principais Números e Projeções
- Cenário Global:
- 2024: O valor total da produção global de biossoluções é de €313 bilhões (€118 bi diretos e €195 bi indiretos), gerando cerca de 1,84 milhão de empregos.
- 2035 (Projeção): Sob políticas de incentivo e modernização regulatória (cenário de alto crescimento), o setor global pode atingir €877 bilhões em produção e suportar mais de 5 milhões de postos de trabalho.
- Multiplicador de Emprego Global: Para cada emprego direto criado na indústria de biossoluções, 2,4 empregos indiretos são gerados na cadeia de suprimentos (com 51% destes alocados na agricultura).
- Cenário do México:
- 2024: A pegada econômica do setor no México movimenta €5,2 bilhões (€2,8 bi diretos e €2,4 bi indiretos) e sustenta 32.100 empregos (13.400 diretos e 18.700 indiretos).
- 2035 (Cenário Base vs. Alto Crescimento): No cenário base (sem mudanças estruturais), a produção alcançará €10,6 bilhões. Com reformas regulatórias e incentivos direcionados, o valor pode subir para €12,3 bilhões (+130%) e 74.200 empregos.
- Interconexão Setorial: Do total de empregos indiretos gerados pelas biossoluções no México, 49% estão na agricultura, 30% no comércio/distribuição e 10% no setor de alimentos e bebidas.
PEGADA ECONÔMICA NO MÉXICO (2024 vs. 2035)
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Métrica 2024 2035 (Base) 2035 (Alto Cresc.)
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Produção Total (EUR) € 5,2 bi € 10,6 bi € 12,3 bi
Empregos Totais 32.100 64.400 74.200
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A Levedura da Prosperidade: O Paradoxo Mexicano
Uma das sacadas analíticas mais felizes do relatório é demonstrar que o México já é um gigante bioeconômico sem o saber. O país é o maior exportador mundial de cerveja em volume, uma indústria 100% fundamentada em fermentação e processos enzimáticos.
Entretanto, enquanto a fermentação alcoólica tradicional é consolidada, a biomanufatura avançada (bioinsumos agrícolas, biocombustíveis de aviação, probióticos e biocatalisadores para captura de carbono) enfrenta gargalos regulatórios severos. A meta potencial de €12,3 bilhões até 2035 equivale à metade de todo o mercado de cerveja mexicano atual, mostrando que o salto necessário não depende da criação de novas capacidades industriais do zero, mas do aproveitamento e diversificação da infraestrutura que o país já possui.
A Fragmentação das Políticas Públicas
O relatório diagnostica que o México possui “as peças do quebra-cabeça, mas não a imagem na caixa”. Há iniciativas legislativas e governamentais promissoras rodando em paralelo, mas sem coordenação centralizada:
- Nova Lei de Biocombustibles (2025): Reconheceu o Sustainable Aviation Fuel (SAF), mas não estabeleceu mandatos obrigatórios de mistura (blending mandates), essenciais para garantir demanda e atrair investimento privado de longo prazo.
- Iniciativa de Lei de Bioinsumos Agrícolas: Visa criar uma via de aprovação ágil para biofertilizantes e biocontroles, alinhando o México ao modelo bem-sucedido da Lei dos Bioinsumos (Lei nº 14.515/2022) do Brasil.
- Plan México: Promove substituição de importações e nearshoring, mas ainda não inclui explicitamente o setor de biomanufatura e biossoluções na sua lista de prioridades estratégicas de incentivo fiscal e infraestrutura.
O Desafio da Produtividade e Dependência Agrícola
O México importa cerca de 60% dos fertilizantes químicos que consome e mais de 80% dos combustíveis líquidos. A dependência de insumos sintéticos importados tornou-se uma vulnerabilidade de segurança nacional e soberania alimentar. O estudo demonstra que a substituição de insumos sintéticos por biofertilizantes baseados em microrganismos (aproveitando resíduos de bagaço de cana e palha de milho) tem capacidade de mitigar choques externos e reter valor nas comunidades rurais.
Recomendações
Como observador das tendências industriais da América Latina, considero a metodologia do relatório (baseada em tabelas de insumo-produto Inter-Country Input-Output – ICIO da OCDE combinadas com dados da UNIDO e BACI) extremamente sólida. Ela expõe com precisão como o multiplicador econômico das biossoluções transborda a indústria manufatureira e injeta valor direto no campo.
Para que economias emergentes capturem esse potencial até 2035, destaco três diretrizes prioritárias:
- Segurança Jurídica e Agilidade Regulatória: Atrasos de aprovação em órgãos sanitários e ambientais (como COFEPRIS/SENASICA no México ou ANVISA/MAPA no Brasil) sufocam a inovação. É urgente criar vias simplificadas e prazos máximos definidos por lei para a homologação de insumos biológicos e probióticos com histórico comprovado de segurança.
- Mandatos de Demanda e Políticas de Mistura: O mercado de combustíveis renováveis (como SAF e etanol) só se consolida quando há clareza nas metas de descarbonização do Estado. A adoção de mandatos progressivos de blending atua como catalisador de investimentos privados.
- Articulação do Nearshoring Verde: As cadeias globais de suprimentos buscam fornecedores com menor pegada de carbono. Incluir biossoluções em planos de desenvolvimento industrial (como o Plan México) permite atrair capital estrangeiro focado em biomanufatura e produtos de “rótulo limpo” (clean label).
O estudo do Amsterdam Data Collective reforça que as biossoluções não pertencem a um futuro utópico ou a uma abordagem puramente ecológica. Elas são uma alavanca concreta de produtividade industrial e transição energética. O México — e, por extensão, a América Latina — possui biomassa, capacidade industrial instalada e mercado consumidor. Cabe agora aos decisores públicos e aos líderes empresariais conectar a regulação à oportunidade, transformando o potencial biológico em prosperidade econômica sustentável.
*Daniel Goettenauer é empreendedor, Diretor da Tropos Amazônia e Troposlab e atuando em projetos de inovação e bioeconomia na região amazônica.
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