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Debate no FIINSA aborda responsabilidade das empresas nas relações com comunidades

Comprar produtos da floresta exige conhecer as condições em que são produzidos, como o valor é distribuído e quais impactos a relação comercial provoca nos territórios. No Festival de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (FIINSA), em Manaus, representantes de comunidades, do setor privado e empreendedores discutiram os desafios de transformar a compra de matéria-prima e produtos locais em parcerias que conciliem conservação, geração de renda e respeito a direitos.

O debate integrou o painel “Da intenção à sociobioeconomia: um guia de boas práticas para o setor privado”, na programação desta quarta-feira, 4, no FIINSA. Participaram Juliana Simões, da The Nature Conservancy (TNC), Denis Minev, da Bemol, e Kedson Castro, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), com moderação de Ellen Acioli, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). 

Durante a conversa, os participantes revisitaram o guia de boas práticas lançado em 2025 e os desafios que motivaram sua elaboração. Juliana relembrou como a escuta de comunidades ajudou a identificar obstáculos e a construir orientações para relações mais equilibradas com empresas e investidores.

Segundo ela, oficinas com representantes indígenas, quilombolas e de outras comunidades tradicionais do Brasil, Peru, Equador e Colômbia reuniram experiências positivas e negativas dessas relações. A procura crescente por produtos amazônicos encontra povos e organizações que nem sempre dispõem dos mesmos instrumentos de negociação dos compradores.

O processo de escuta contribuiu para os sete princípios do guia. Conforme explicou Juliana, as orientações envolvem respeito aos direitos, aos modos de vida e às formas de organização das comunidades, além de salvaguardas socioambientais, rastreabilidade e gestão de riscos.

O que existe por trás do produto

Entre os desafios apresentados no painel estão a definição de preços, os custos de produção e transporte e a distância entre as exigências do mercado e as condições disponíveis nos territórios.

Kedson destacou que compreender um produto comunitário exige acompanhar o processo que o torna possível. No caso da farinha, isso significa conhecer o trabalho desde o preparo da roça, as limitações de infraestrutura e os custos envolvidos até que o alimento chegue ao comprador.

Seu relato também apontou uma dificuldade na negociação: a necessidade de obter renda pode levar uma comunidade a vender mesmo sem conseguir estabelecer um preço que remunere adequadamente o trabalho. Ao mesmo tempo, a produção atende à alimentação das famílias e mantém vínculos com o território e sua conservação.

Para Juliana, uma parceria deve considerar esse conjunto de condições. Exigências sobre qualidade, beneficiamento ou apresentação dos produtos podem demandar equipamentos, assistência técnica e inovação. Na avaliação dela, as empresas podem contribuir para desenvolver essas soluções junto às comunidades. “A empresa tem que estar ali não só para comprar o produto, mas também para olhar para a comunidade como parceira do seu negócio, para fazer eles crescerem, com o olhar de desenvolvimento de território”, destaca.

Denis Minev apresentou a perspectiva de quem compra e investe. Relatou dificuldades relacionadas à capacidade de atender pedidos maiores, à adequação dos produtos aos diferentes públicos e à qualidade das embalagens. Defendeu que as iniciativas precisam ter viabilidade econômica e apontou a aprendizagem como parte do desenvolvimento dos negócios.

As contribuições evidenciaram um desafio para as parcerias: estabelecer compromissos comerciais que possam ser cumpridos e identificar o apoio necessário para os fornecedores e comunidades prosperarem também.

Responsabilidade nas cadeias

O debate ganhou uma dimensão diretamente ligada ao pilar social do ESG – sigla para ações ambientais, sociais e de governança – quando Juliana abordou situações envolvendo crianças e adolescentes em atividades familiares nas comunidades e a preocupação de empresas com essas cadeias.

Segundo seu relato, denúncias de trabalho infantil levaram à interrupção de compras por parte de empresas. Ela destacou a necessidade de compreender os contextos locais e buscar alternativas de inovação com as comunidades para enfrentar os problemas identificados.

O tema exige distinguir a transmissão de conhecimentos tradicionais de atividades que violam direitos. Na perspectiva ESG, a discussão coloca em evidência a identificação de riscos, a proteção de direitos e o acompanhamento das condições de produção. O argumento apresentado por Juliana foi que a preocupação empresarial deve se traduzir também na busca de soluções e inovações, em vez de se encerrar no afastamento da cadeia por receio de danos à imagem.

Parcerias que respeitem as escolhas dos territórios

Outro ponto discutido foi o significado de ganhar escala. Juliana defendeu ampliar modelos de parceria que protejam a floresta e distribuam renda, respeitando os volumes de produção e as formas de organização das comunidades.

Ela também ressaltou que nem todos desejam fornecer para grandes empresas. Parte da produção atende ao consumo das famílias, às trocas e aos mercados locais. Essas escolhas precisam ser consideradas na construção dos negócios.

Kedson apontou a união entre associações e comunidades como um caminho para agregar valor aos produtos e fortalecer a comercialização. Denis, por sua vez, reconheceu oportunidades tanto em mercados de maior escala quanto em nichos, conforme as características de cada empreendimento.

Nesse contexto, os desafios apresentados no painel aproximam os três pilares do ESG: conservar a natureza, proteger as pessoas e estabelecer relações comerciais com transparência e participação. Para as empresas interessadas na sociobioeconomia, a parceria começa por conhecer quem produz, ouvir suas prioridades e negociar condições compatíveis com a realidade do território.

O FIINSA é realizado pelo Impact Hub Manaus e pelo Idesam, encerrando nesta quinta-feira, 5, com programação no Manaus Plaza Centro de Convenções e atividades de imersão em Manaus e arredores. 

Texto: Elendrea Cavalcante/ Rede ESG

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