O Brasil diante dos minerais críticos: ou soberania industrial ou atraso reciclado
O Brasil parece ter uma vocação estranha para chegar cedo à riqueza e tarde ao projeto.
Foi assim com o ouro, com a borracha, com o minério de ferro, com o petróleo, com a biodiversidade amazônica, com os dados, com a energia limpa. O país quase sempre encontra o futuro no próprio território, toca nele, reconhece seu brilho, mede seu valor, chama especialistas, convoca seminários, anuncia programas, cria siglas, inaugura discursos, mas na hora decisiva entrega a cadeia de valor para outro pensar, outro industrializar, outro patentear, outro enriquecer.

Agora a história se aproxima outra vez, com outra roupa.
A Câmara dos Deputados aprovou o marco legal dos minerais críticos e estratégicos. O texto segue para o Senado. A notícia, lida apressadamente, pode parecer apenas mais um movimento legislativo no setor mineral. Não é. Estamos diante de uma das poucas oportunidades reais de reposicionamento do Brasil na corrida tecnológica do século XXI.
Minerais críticos não são apenas pedras valiosas. São a matéria física da nova economia. Estão nas baterias, nos veículos elétricos, nos sistemas de armazenamento de energia, nos semicondutores, nos sensores, nas turbinas, na infraestrutura digital, nas redes de comunicação, nos equipamentos médicos, nos sistemas industriais avançados. O mundo digital, que durante muito tempo vendeu a fantasia da imaterialidade, revelou seu corpo. Ele tem peso. Tem calor. Tem terra. Tem água. Tem subsolo. Tem conflito.
Não existe inteligência artificial sem energia. Não existe data center sem chip. Não existe chip sem minerais. Não existe transição energética sem mineração. A pergunta, portanto, não é se o Brasil tem recursos. Tem. A pergunta é se terá comando sobre o destino econômico, tecnológico e político desses recursos.
É aqui que o episódio do Redata precisa entrar como advertência, não como nota de rodapé.
O Redata, regime especial voltado aos data centers, partia de uma percepção correta: o Brasil tem condições estratégicas para disputar parte da infraestrutura digital global. Temos matriz elétrica relativamente limpa, território, posição geográfica relevante, cabos submarinos, mercado consumidor, capacidade técnica e demanda crescente por processamento de dados. Mas a Medida Provisória perdeu validade em fevereiro de 2026 sem sequer ter a comissão mista instalada. Um tema de infraestrutura digital, em plena reorganização mundial da economia dos dados, foi tratado com a lentidão habitual de quem ainda não entendeu que soberania hoje também se mede em capacidade computacional.
A oportunidade não morreu por falta de importância. Morreu por falta de Estado.
Esse é o risco agora.
Se o Brasil tratar minerais críticos como tratou o Redata, perderá mais do que uma pauta. Perderá posição histórica. Porque data centers são uma camada da infraestrutura digital. Minerais críticos estão antes. São a camada anterior, material, fundante. São a carne mineral da tecnologia. Sem eles, o discurso sobre inovação vira decoração institucional. Sem eles, a transição energética vira dependência importada. Sem eles, a indústria nacional continuará olhando o século XXI pela vitrine.
O marco legal pode ser uma virada, mas também pode ser apenas mais uma embalagem moderna para um vício antigo. Tudo dependerá daquilo que o Brasil decidir fazer entre a lavra e o produto final.
Exportar mineral bruto é o caminho conhecido. É o caminho fácil. É o caminho colonial com linguagem atualizada. O país arranca a matéria, vende barato, comemora superávit, assiste outro país transformar aquilo em tecnologia, depois compra de volta em forma de bateria, equipamento, sistema, patente e dependência.
Esse ciclo não é uma fatalidade geológica. É uma escolha política.
A política correta para minerais críticos não pode ser apenas uma política de mineração. Precisa ser uma política industrial, tecnológica, energética, ambiental e territorial. Não basta perguntar onde está o lítio, o nióbio, o grafite, o níquel, as terras raras. É preciso perguntar onde estarão as fábricas, os laboratórios, os centros de engenharia, as patentes, as empresas nacionais, os empregos qualificados, os mecanismos de reciclagem, os critérios de rastreabilidade e as contrapartidas regionais.
Sem isso, teremos apenas extrativismo com PowerPoint.
O Brasil precisa abandonar a ingenuidade de imaginar que incentivo fiscal, por si só, produz desenvolvimento. Incentivo sem exigência vira transferência de dinheiro público para margem privada. Benefício tributário precisa comprar futuro. Precisa exigir transformação local, agregação de valor, pesquisa aplicada, capacitação de mão de obra, participação de universidades, metas industriais, tecnologia instalada no território brasileiro. O Estado não pode apenas facilitar a extração. Tem que condicionar a extração a um projeto nacional.
A palavra soberania anda desgastada porque foi usada demais por gente que a confundiu com retórica de palanque. Mas soberania, no caso dos minerais críticos, é simples e dura: o país decide se será dono do processo ou apenas proprietário formal da jazida. Possuir riqueza natural não basta. O subsolo não salva uma nação que não sabe o que fazer com ele.
Há também uma ferida amazônica nesse debate, e fingir que ela não existe seria covardia intelectual.
A transição energética não pode se tornar novo salvo-conduto para devastação. O fato de um mineral servir a uma bateria, a um carro elétrico ou a uma tecnologia limpa não torna automaticamente limpa a sua extração. Existe um colonialismo climático em gestação quando territórios periféricos são pressionados a entregar sua floresta, sua água, seus povos e seus equilíbrios ecológicos para que centros ricos possam consumir tecnologias verdes com consciência tranquila.
A Amazônia não pode ser tratada como almoxarifado da modernidade alheia.
O país precisa ter coragem para dizer que mineração estratégica só será aceitável quando vier acompanhada de responsabilidade ecológica real, controle público, consulta séria às populações afetadas, fiscalização robusta, recuperação ambiental verificável e desenvolvimento regional que não seja apenas promessa em audiência pública. O minério pode ser crítico, mas a vida também é. A floresta também é. A água também é. A estabilidade climática também é. A economia que não entende isso continua presa ao conceito pobre de escassez, como se o mundo apenas diminuísse um pouco e nunca acabasse. Mas não se trata de escassez. Trata-se de finitude.
Essa distinção muda tudo.
Escassez ainda permite cinismo. Finitude exige responsabilidade.
A corrida do século XXI não será vencida apenas por quem possui recursos naturais, mas por quem conseguir organizá-los em cadeias inteligentes. China, Estados Unidos, União Europeia e outros blocos já perceberam isso. A disputa não é apenas por jazidas. É por capacidade de refino, processamento, tecnologia, escala industrial, controle logístico, poder regulatório, formação científica e domínio sobre padrões globais.
O Brasil não pode entrar nessa corrida como fornecedor de cascalho estratégico.
A experiência do Redata mostra que o país até consegue enxergar a janela, mas ainda tropeça na maçaneta. Vê a oportunidade, mas não estrutura a travessia. Anuncia prioridade, mas permite que a burocracia, a disputa fiscal, a baixa coordenação política e a falta de senso histórico corroam o tempo da decisão. E o tempo, hoje, é parte da soberania. Quem demora demais não entra atrasado. Entra dependente.
O marco dos minerais críticos precisa nascer vacinado contra essa doença brasileira.
Não pode virar apenas disputa federativa por royalties. Não pode ser capturado por grupos econômicos interessados em extrair rápido e transformar pouco. Não pode ser reduzido a licenciamento acelerado sem inteligência ambiental. Não pode repetir a lógica de sempre: socializar o risco, privatizar o ganho e deixar o território com a conta longa da degradação.
O Brasil tem, talvez, uma das últimas oportunidades de converter abundância natural em inteligência produtiva. Mas isso exige mais que lei. Exige Estado capaz de coordenar, cobrar, induzir e proteger. Exige setor privado disposto a investir em tecnologia, não apenas em concessão. Exige universidade no centro da cadeia, não na periferia decorativa dos convênios. Exige que a Amazônia seja tratada como território estratégico e vivo, e que a palavra desenvolvimento volte a significar algo além de retirar, vender e repetir.
A aprovação do marco pode ser o começo de uma nova posição brasileira no mundo. Ou pode ser apenas mais um capítulo da nossa velha pedagogia do atraso.
O Brasil já perdeu tempo demais fingindo que riqueza natural é destino. Não é. Riqueza natural sem projeto vira dependência. Minério crítico sem indústria vira colonialismo com outra embalagem. O padrão, no fundo, é sempre o mesmo: extrair, vender barato, e comprar de volta a tecnologia que outros fizeram com o que era nosso.
O século XXI não está esperando o Brasil se organizar. Ele já começou, mineral, energético, computacional, industrial. A riqueza está no território. O que ainda não está decidido é se teremos coragem política para impedir que ela saia pelo porto em estado bruto e volte, anos depois, como dependência cara, patente estrangeira e atraso nacional.
*Leonardo Costa é fundador da 247 Locação, doutorando em Inteligência Artificial e Ética Computacional. Especialista em Engenharia de Software, Gestão Estratégica e Gerenciamento de Projetos, atua na pesquisa da fronteira entre moralidade tecnogênica, deliberação algorítmica e justiça transespécie, com publicações de impacto internacional.
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