Dia da Amazônia: O Futuro da Humanidade Passa Pela Amazônia
Michele Aracaty*
Importância da Data – Dia da Amazônia
O dia 5 de setembro foi escolhido para homenagear a sanção da lei n.º 582, de 05.09.1850, por Dom Pedro II, que elevou o 3, trazendo a independência.
A data é uma oportunidade para educar as novas gerações sobre a importância da conservação da Amazônia e conta com o apoio da imprensa nacional e internacional para ampliar seu impacto e fortalecer a luta por políticas públicas que impulsionem o desenvolvimento regional e mudem a realidade dos amazônidas.
A data é uma oportunidade para chamar a atenção para a relevância da Amazônia e seu papel como maior reserva natural do planeta e uma das maiores riquezas da humanidade, além de fortalecer a COP da Floresta.
Cenário Regional: preconceito e degradação ambiental
Quando a região enfrenta impactos diretos e indiretos decorrentes das mudanças climáticas, com possibilidade de termos mais um período difícil em relação à qualidade do ar, com possibilidade de fumaça, o Dia da Amazônia, comemorado em 5 de setembro, é uma data relevante para incentivar e reforçar discussões pautadas na preservação da região.
A Amazônia desempenha um papel crucial no equilíbrio climático global e na preservação da biodiversidade. No entanto, enfrenta desafios significativos devido ao desmatamento, preconceito e degradação ambiental, o que pode impactar tanto a região quanto o planeta na totalidade.
Preconceito Regional: tentativa de esvaziar a COP da Floresta
Reforço que, neste ano de 2025, a Amazônia está numa vitrine, visto abrigar o maior evento climático do planeta, mas que, ao invés de receber incentivos e apoio por parte dos demais estados amazônicos ou do restante do país, a capital do estado do Pará sofre ataques diários e preconceituosos em função da ineficiência infraestrutural e do custo de hospedagem, cenário que reflete a realidade dos estados amazônicos.
Cabe aqui lembrar que uma estrutura adequada para receber eventos do porte da COP30 é realidade somente dos grandes centros, como Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Brasília, para citar alguns.
A Amazônia passa fome
A realidade amazônica, agravada pela pandemia e pelas mudanças climáticas, é de uma região com pelo menos três problemas graves: pobreza, doenças e falta de alimento.
Sua agricultura criminalizada e ineficiente, agravada pela falta de regularização fundiária, não produz alimentos suficientes para atender à demanda regional, resultando assim num quadro grave de insegurança alimentar.
Na última década, as políticas ambientalistas contra o avanço do mundo rural e da agropecuária contribuíram para agravar a situação.
Resultado: A Amazônia importa alimentos com preços elevados, impossibilitando a população de se alimentar adequadamente devido à falta de recursos financeiros e à renda média muito baixa.
Dessa forma, 40% dos amazônidas estão em situação de insegurança alimentar, sendo que a média nacional é de 28%.
As 10 cidades com pior qualidade de vida estão na Amazônia, sendo 7 no Estado do Pará (sede da COP30).
Importância da COP da Floresta na Amazônia
A escolha do Brasil como sede da COP30 se deve à importância estratégica, presença da floresta Amazônica, biodiversidade e potencialidades para liderar a Economia Verde ao nível global.
Com esse propósito, a COP30 representa uma oportunidade para o Brasil demonstrar seus esforços em áreas como energias renováveis e agricultura de baixo carbono, além de reforçar sua atuação em processos multilaterais.
O evento constitui um caminho para impulsionar o desenvolvimento sustentável da região amazônica, melhorando a qualidade de vida da população e promovendo a conservação ambiental.
As pessoas precisam conhecer de perto a realidade da região: quente, úmida, com infraestrutura básica ineficiente e sentir como é viver de fato na Amazônia.
Para tal, espera-se que a conferência traga melhorias em infraestrutura, saneamento, mobilidade urbana e desenvolvimento social, além de fortalecer a bioeconomia e a valorização dos conhecimentos tradicionais da região.
Considerando que a Amazônia tem importância para o clima do planeta, nada mais justo que a maior conferência climática do mundo seja realizada na Amazônia.
A COP30, em Belém, será a oportunidade para mostrar ao Brasil e ao mundo que necessitamos de um modelo econômico sustentável em contraponto à economia da destruição.
Ao longo da COP30, a agenda climática deve ser vista como pilar de desenvolvimento sustentável regional.
O mundo precisa assinar um pacto econômico com a Amazônia, e este deve ser um compromisso político, econômico e social, e não somente mais uma promessa.
O que não espero que ocorra na COP30 – pergunta feita por uma jornalista a mim num evento internacional
Espero que o evento não seja somente mais uma reunião de pessoas com a presença da imprensa internacional, chefes de estados e suas delegações ou somente uma “grande muvuca” e que no final não tenhamos nenhum avanço em pautas relevantes para a economia e o desenvolvimento regional.
Espero que, findado o evento, tenhamos direcionamentos aplicáveis à promoção do bem-estar social para os amazônidas.
Ademais, gostaria que as soluções fossem endógenas e não exógenas, a partir dos conhecimentos tradicionais aliados ao conhecimento científico, com o uso de tecnologias inovadores, e sociais com características regionais.
Uso da Inteligência Artificial para proteger a Amazônia
O uso da IA no cenário amazônico é benéfico por elevar a capacidade de analisar grandes volumes de dados de forma rápida, identificar padrões ambientais e prever impactos de eventos como desmatamentos e secas.
Ademais, pode ser usada para agilizar o tempo de análise, permitindo ações mais rápidas, precisas, além de facilitar a integração de informações de diversas fontes, aumentando a assertividade das decisões e a eficácia das estratégias de preservação e a floresta em pé.
A Inteligência Artificial é a chave para a preservação da floresta amazônica, em especial no que tange ao desmatamento, que continua sendo um problema crítico. O desmatamento desenfreado ameaça desequilibrar o ecossistema global, tornando urgente a implementação de estratégias eficazes para sua contenção.
Para tanto, a colaboração entre organizações de pesquisa e tecnologia torna-se essencial para desenvolver soluções inovadoras que possam monitorar e combater a destruição da floresta.
Crescimento Econômico x Preservação Ambiental
Cabe refletir sobre os problemas enfrentados pela Amazônia atualmente, a interligação das questões sociais e econômicas com a preservação ambiental, e o papel das comunidades locais e indígenas na proteção da região, mas que ainda não provocaram o processo de transformação que a região e os amazônidas tanto necessitam.
Pauta da Sustentabilidade (social, econômica e ambiental)
As questões sociais e econômicas estão conectadas à conservação ambiental na Amazônia.
O tripé da sustentabilidade constitui o modelo em que as variáveis têm o mesmo peso. Ou seja, a Amazônia vive um eterno dilema.
“Trata-se de uma região rica em biodiversidade e recursos naturais com valor inestimável e uma população vulnerável que cotidianamente é privada de direitos básicos (saneamento básico, energia elétrica, água potável…) e, em termos de métricas, apresentam os mais ínfimos indicadores de vulnerabilidade social e econômica.
“Floresta rica, população pobre e vulnerável”. A Amazônia concentra os municípios com os piores IDH’s do país (Amazonas e Pará)”.
Realidade agravada pela pandemia e agora pelas mudanças climáticas.
Biodiversidade: como chave para uma nova economia
A floresta é considerada a fonte inesgotável de inovação e soluções para os desafios globais, em que cada espécie preservada pode gerar novos produtos, serviços e conhecimento que podem beneficiar toda a sociedade.
Dessa forma, a perda da biodiversidade é também: menos insumos naturais para cosméticos, alimentos e medicamentos; prejuízo imensurável para o equilíbrio ambiental, afetando o clima e o ecossistema; e a redução ou perda da renda de comunidades que dependem da floresta para viver.
Os desafios amazônicos são do tamanho da Amazônia
Os desafios enfrentados na implementação de políticas de proteção ambiental na Amazônia estão na imensidão territorial, bem como na falta de oportunidades econômicas, contribuindo para as atividades predatórias (que impactam a floresta).
Levanto a bandeira para a necessidade urgente de identificação de atividades econômicas preservacionistas que desestimulem gradativamente o desmatamento ilegal.
“Não é desmatamento que leva à pobreza e sim o contrário”.
Alternativa economicamente viável para desestimular o desmatamento ilegal: Economia Verde
Precisamos tornar viável economicamente atividades preservacionistas que esvaziem ou tornem menos atrativas economicamente as atividades predatórias.
Um dos principais desafios a serem enfrentados pela Amazônia é a identificação de um modelo econômico ou produtivo de bens e serviços de baixo impacto que mitigue a vulnerabilidade social e econômica regional, gerando emprego e renda verdes para manter a floresta em pé.
Para tanto, devemos mudar a lógica: “deve sair de cena a extração predatória dos recursos naturais e dos biomas e entrar no jogo a valorização da floresta em pé e de tudo o que é produzido em cada ecossistema, por isso, a necessidade urgente da implementação de uma Economia Verde na região”.
Foco na Economia Verde: A Economia do Século XXI
A Economia Verde a ser implementada na Amazônia constitui uma oportunidade de apresentar ao mundo um modelo brasileiro tropical de desenvolvimento com o principal ativo da biodiversidade que melhore as condições de vida e proporcione bem-estar para a população que vive na região em condições elevadas de vulnerabilidade socioeconômica e que não dispõe de direitos básicos constitucionais.
Bioeconomia Amazônica como pilar da Economia Verde
Neste cenário, é essencial que uma Bioeconomia Amazônica, pilar da Economia Verde, seja inovadora e enxergue a Amazônia como um ambiente de inteligência natural e não como local de extração/produção de insumos primários.
Além do potencial econômico, a bioeconomia pode reduzir desigualdades e gerar empregos verdes.
Brasil como líder da Economia Verde
O Brasil só poderá se transformar no motor de crescimento verde se priorizar a Amazônia e as pessoas e conseguir zerar o desmatamento. Lembrando que é na Amazônia que se encontra o maior potencial de bioeconomia do país e dez por cento da biodiversidade do mundo.
Floresta como Ativo Ambiental Estratégico
Lembrando que a floresta é a principal fonte de inovação e que a Amazônia não é formada somente por cobertura vegetal e rios. “Aqui vivem pessoas que precisam de emprego e renda que contribuem para a preservação ambiental. Precisamos pensar grande em relação à Amazônia e não podemos errar mais. Temos que nos conscientizar de que o futuro do Brasil e do planeta passa necessariamente pelo futuro da Amazônia”.
A floresta constitui ativo de investimento estratégico para a Economia Verde, ou seja, a proteção dos ativos ambientais representa potencial inestimável de retorno financeiro, além de ajudar na mitigação das mudanças climáticas e na redução de riscos.
A Amazônia como prioridade para o Brasil: hora da ação
Sem ações concretas, não há resultados efetivos. Medidas temporárias somente suavizam os impactos, mas não resolvem o problema de fato. “sendo que necessitamos de um planejamento com ações coordenadas e investimento”.
“Precisamos de uma política pública assertiva que provoque um processo de transformação socioeconômica regional”.
Amazônia como solução e não como problema
Almejamos um futuro no qual a Amazônia seja referência para o mundo a partir de um modelo de desenvolvimento preservacionista e mitigador das desigualdades socioeconômicas, em que sua população é assistida por saneamento básico, energia elétrica e conectividade, enquanto produz ciência, tecnologia e inovação a partir de suas potencialidades.
Por fim, a Amazônia não é um problema, é solução e precisa ser objetivo de política pública prioritária para o Brasil, tendo os amazônidas e o planeta no centro.
Precisamos de uma proposta que compreenda os números e as prioridades, mas que enxergue além das planilhas e que consiga transformar estatísticas em políticas públicas, dados em argumentos e ideias em projetos aplicáveis.
Fonte:
Obra: A Amazônia do Futuro e o Futuro da Amazônia: A Economia Verde é a nossa Bala de Prata? lançado em 05.06.25.
* Michele Lins Aracaty é Economista, Escritora, Pós-doutora em Desenvolvimento Regional, Docente do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e atual presidente do Conselho Regional de Economia do Amazonas e Roraima (Corecon – AM/RR).
** O conteúdo e as opiniões expressas nos artigos publicados são de responsabilidade exclusiva dos autores.
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