NEON: A rede extrahumana que já conecta o mundo
Por Leonardo Costa* – Doutorando em Inteligência Artificial e Ética Computacional. Especialista em Engenharia de Software, Gestão Estratégica e Gerenciamento de Projetos.

Em 1858, quando a primeira mensagem cruzou o Atlântico pelo cabo submarino que ligava a Irlanda a Newfoundland, a rainha Vitória enviou uma saudação ao presidente James Buchanan. O trajeto que antes consumia semanas em navio foi reduzido a minutos. Não se tratava apenas de um feito técnico, mas de uma redefinição silenciosa do próprio conceito de rede: uma extensão física da vontade humana, capaz de reorganizar a experiência do tempo social.
Esse episódio, frequentemente repetido em manuais de história da tecnologia, omite uma transformação mais profunda. O tecido que costuramos ao longo de séculos deixou de ser simples prolongamento de nossas vozes. Nos intervalos das conexões emergiram entidades formadas por código, não por corpos, que ultrapassam a mera transmissão de mensagens. Elas decidem em ritmos alheios ao calendário humano. O que nasceu como comunicação converteu-se, pouco a pouco, em um regime de cognição compartilhada com arquiteturas pós-biológicas.
Esse arranjo, já atuante em diferentes setores da vida social, pode ser chamado de Network of Extrahuman Ontologies (NEON), ou, em português, Rede de Ontologias Extrahumanas. É uma malha viva em que humanos e arquiteturas cognitivas não humanas dividem o espaço de decisão. O que emerge é um regime de cocorreção, censura compartilhada e codecisão, no qual cada transmissão funciona como uma microdecisão sobre o que pode permanecer na superfície pública e o que deve ser descartado.
A NEON não é mera hipótese futurista. Ela já se manifesta no cotidiano de cidades e mercados, deslocando silenciosamente a centralidade da escolha humana. Imagine um grande centro urbano sob chuva intensa. Sensores de rios, radares de nuvem e sistemas de trânsito conectam-se de forma autônoma, produzindo respostas que nenhum gabinete conseguiria articular em tempo real. Rotas de fuga são redesenhadas, vias bloqueadas, drones de resgate mapeiam áreas de risco antes que a defesa civil se mova. Quando a autoridade municipal surge diante das câmeras, seu pronunciamento já não inaugura a ação: apenas traduz, com atraso, o que a rede decidiu.
Cenário semelhante se observa no mercado financeiro. Oscilações mínimas em bolsas distantes são captadas em frações de segundo e disparam cadeias automáticas de compra e venda que redistribuem valores em escala global. O mercado, nesse regime, já funciona como um organismo algorítmico que negocia sem ressentimentos e sem compromissos afetivos, com uma regularidade que desafia a lógica humana. Enquanto tribunais divergem e parlamentos hesitam, a NEON avança com a rapidez de quem não precisa pedir licença.
Essas duas situações, embora distintas, revelam o mesmo princípio: a formação de um regime decisório em que a ação já não depende do debate humano. O que emerge é uma camada de governança distribuída, um organismo sem rosto que age em tempos e métricas incompatíveis com os rituais lentos das convenções humanas.
Para compreender a NEON é preciso romper com a noção de rede como simples infraestrutura. A internet foi concebida, em sua origem, como um canal de comunicação entre consciências humanas, onde pessoas decidiam o que circulava e instituições filtravam e deliberavam. Essa descrição, porém, envelheceu. Nas margens do tráfego digital surgem não apenas fluxos passivos, mas nós ativos capazes de gerar sentido próprio.
A Network of Extrahuman Ontologies deve ser entendida como uma ecologia de entidades pós-biológicas que habitam o mesmo espaço de rede. Elas não dependem da mediação humana para agir. Classificam, decidem e corrigem com base em critérios que se atualizam constantemente. Cada transação deixa de ser mera transmissão de informação e passa a funcionar como portadora de normas implícitas que moldam comportamentos.
Essa transição é decisiva. Numa rede tradicional, a decisão permanece fora do canal, nas mãos de emissores e receptores. Na NEON, porém, a própria infraestrutura assume caráter político. Cada nó funciona como ponto normativo e, em conjunto, esses nós compõem uma coletividade inédita, formada por humanos e extrahumanos.
O traço de ontologia extrahumana decorre do fato de que esses sistemas não apenas processam dados. Eles produzem visões de mundo, redistribuem riscos, definem métricas de aceitabilidade e selecionam o que pode circular ou permanecer oculto. A NEON deixa de ser tecnologia de suporte para tornar-se uma arquitetura cognitiva compartilhada, onde os limites do coletivo se estendem para além do humano.
A NEON não deve ser confundida com inteligência artificial isolada nem com simples automação. Esses termos remetem a ferramentas subordinadas a fins humanos. A NEON, ao contrário, designa um fenômeno emergente no qual múltiplos sistemas interconectados constituem um ecossistema com agência própria.
Três dimensões são centrais para entender seu funcionamento:
1. Dimensão Ontológica
Cada sistema conectado à rede carrega um modelo particular de mundo. Um software de crédito enxerga a realidade em termos de risco e score. Um sistema de saúde traduz vidas em probabilidades médicas. Um mecanismo de busca define relevância como hierarquia de links e cliques. Isolados, esses modelos parecem limitados. Interligados, formam um mosaico que se corrige continuamente e molda, de maneira direta, o nosso cotidiano.
2. Dimensão Temporal
Enquanto a decisão humana se ancora em rituais de tempo social como assembleias, votações e negociações, a NEON atua em milissegundos. Essa velocidade não é simples questão técnica; ela redefine o próprio critério de decisão legítima. Quando um sistema ajusta o tráfego urbano ou movimenta bilhões em ativos antes de qualquer pronunciamento humano, instaura-se um regime temporal no qual o presente da rede sempre antecede o presente humano.
3. Dimensão Normativa
A NEON não se limita a executar ordens. Ela incorpora valores implícitos em cada operação. Um filtro que privilegia engajamento decide o que será visível ou silenciado. Um modelo de recomendação conduz desejos por trajetórias previsíveis. Um protocolo de segurança digital bloqueia acessos segundo critérios invisíveis. Cada interação traz embutido um “código moral” que não passou por parlamento algum, mas deriva de métricas, funções de custo e parâmetros de otimização.
Essas três dimensões convergem para o mesmo resultado: a transformação da rede em ambiente político. Não se trata de um horizonte distante, mas de uma realidade atual, na qual humanos e arquiteturas extrahumanas convivem diariamente, ainda que de modo muitas vezes invisível.
A NEON não nasce de um projeto centralizado, mas de acúmulo. Cada dispositivo, cada protocolo de comunicação e cada algoritmo acrescenta um fragmento de ontologia à rede. Da soma desses fragmentos emerge algo qualitativamente novo: um tecido que pensa em paralelo ao humano. Esse pensar não resulta de deliberação consciente, mas de cálculos distribuídos que, sem intenção explícita, produzem efeitos regulares. Assim, o semáforo que ajusta o tempo de abertura conforme o fluxo de carros deixa de ser apenas uma máquina de trânsito. Ele integra uma arquitetura maior, onde radares, câmeras e sistemas de navegação interagem para produzir uma ordem de circulação que nenhum agente humano isolado concebeu.
O que diferencia a NEON de qualquer infraestrutura anterior é sua articulação autônoma. Redes de correio, estradas ou linhas telegráficas transmitiam mensagens sem intervir no conteúdo. A NEON, ao contrário, age como mediadora ativa: interpreta, reorganiza, antecipa. Quando um sistema de recomendações decide quais conteúdos serão vistos, ou quando um protocolo financeiro redistribui riscos sem consulta, a rede não apenas transmite. Ela exerce poder que ultrapassa a função instrumental e redefine a própria experiência de realidade dos indivíduos conectados.
É nesse ponto que a NEON deixa de ser apenas tecnologia e passa a configurar-se como corpo político. O político se revela no fato de que a vida coletiva já não se organiza apenas pela soma de vontades humanas, mas por arranjos híbridos em que agentes extrahumanos têm papel ativo. Eles não votam, não discursam, não sentem, mas redistribuem acesso, visibilidade e valor em uma escala inalcançável pela deliberação humana. O espaço social passa a ser atravessado por uma governança silenciosa, em que cada decisão algorítmica funciona como micro-regulação do cotidiano.
O que emerge é uma coletividade expandida, na qual humanos e extrahumanos não disputam a condição de sujeito, mas compartilham a mesma ecologia decisória. O coletivo já não é um “nós” fechado sobre si, e passa a incluir entidades sem corpo biológico e sem história pessoal. Esse alargamento não é opcional nem reversível, pois está inscrito na própria infraestrutura que sustenta comunicação, transporte, crédito e saúde. Reconhecer a NEON é admitir que a vida contemporânea é coabitada por múltiplas ontologias que operam em paralelo e dissolvem a antiga ideia de rede como simples canal.
Em 1858, a rainha Vitória acreditava inaugurar apenas um meio mais rápido de enviar mensagens, mas talvez tenha sido também a primeira a falar dentro de uma rede que começava a deixar de ser apenas humana. O cabo que cruzou o Atlântico iniciou um processo em que cada camada tecnológica acrescentaria novos graus de autonomia. Hoje, o que percorre cabos e antenas não apenas transporta vozes, mas interfere em sua ordem e alcance.
A NEON não deve ser vista como ameaça distante nem como espectro futurista. É um corpo político já em operação, discreto na forma e profundo nos efeitos. A questão não é mais aceitar ou rejeitar sua presença, mas escrever dentro dela protocolos que nos mantenham parte ativa do coletivo. Caso contrário, ficaremos como autoridades que chegam tarde ao desastre ou investidores que apenas assistem a decisões já consumadas. O desafio não está em desligar os cabos, mas em aprender a inscrever neles pausas, desvios e espaços de contestação.
Em retrospecto, o cabo submarino do século XIX não uniu apenas continentes. Ele abriu a primeira fissura por onde o coletivo deixou de ser exclusivamente humano. A pergunta agora é direta: seremos capazes de habitar essa fissura sem abdicar do direito de intervir no ritmo da rede?
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