Registro digital de doadores de órgãos alcança 30 mil adesões
A decisão de doar órgãos, um dos gestos mais nobres de solidariedade humana, tornou-se mais simples e segura graças à tecnologia. A Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (Aedo), sistema que permite oficializar o desejo de ser doador de forma 100% digital e gratuita, completou dois anos de existência com um marco importante: cerca de 30 mil brasileiros já formalizaram sua intenção nos cartórios de notas de todo o país.
No Amazonas, a ferramenta tem apresentado um crescimento contínuo e expressivo. Desde o seu lançamento, quase 400 cidadãos amazonenses já emitiram o documento digital, conforme apuração feita pela reportagem do Jornal A Crítica. O número é um reforço significativo, especialmente quando contrastado com a fila de espera local: atualmente, mais de 250 pessoas aguardam por um transplante no estado.
Como funciona a formalização digital
Criada em 2024 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em uma ação conjunta com o Colégio Notarial do Brasil (CNB) e o Ministério da Saúde, a Aedo desburocratiza e assegura o processo.
Para se tornar um doador formalizado, o interessado deve acessar a plataforma e-Notariado e solicitar gratuitamente um Certificado Digital Notarizado. A partir daí, o processo inclui uma rápida videoconferência com um tabelião de notas para confirmar a identidade e a intenção, seguida da assinatura eletrônica do documento, onde é possível especificar quais órgãos e tecidos o cidadão deseja doar.
Uma vez assinada, a manifestação de vontade passa a integrar automaticamente a Central Nacional de Doadores de Órgãos. Em caso de necessidade, os profissionais de saúde do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) podem consultar essa base de dados de forma ágil, otimizando os trâmites legais para a captação — fator crucial de tempo para o sucesso dos transplantes. Vale lembrar que o documento pode ser revogado a qualquer momento pelo cidadão.
A decisão final e o conforto para a família
Apesar da validade jurídica do documento eletrônico, a lei brasileira determina que a palavra final sobre a doação continua sendo da família. Contudo, o registro digital exerce um papel fundamental para aliviar o peso da decisão durante o difícil momento do luto.
“A Aedo não substitui o papel da família, mas fortalece esse diálogo. Quando essa vontade já foi manifestada em vida, essa decisão se torna mais clara, mais segura e mais respeitosa para reconhecer o desejo de quem partiu”, ressaltou a coordenadora-geral do Sistema Nacional de Transplantes, Patrícia Gonçalves Freire dos Santos, durante a sessão especial no Senado Federal que celebrou o biênio da iniciativa.
O desafio a nível nacional ainda requer muita atenção. De acordo com os dados da lista de espera do Ministério da Saúde, o Brasil possui hoje cerca de 48.900 pessoas aguardando por um órgão e outras 36.400 na fila por um transplante de córnea. Apenas em 2026, mais de 3 mil transplantes já foram realizados no país, sendo que os procedimentos de rim e fígado seguem liderando as demandas nacional e estadual.
Incentivos e mudança de cultura
Para o presidente do Colégio Notarial do Brasil – Seção Amazonas (CNB/AM), Marcelo Lima Filho, o avanço da ferramenta mostra que a população está cada vez mais disposta a debater o tema.
“A possibilidade de realizar todo o procedimento de forma digital, gratuita e com segurança jurídica aproxima o cidadão desse importante ato de cidadania e contribui diretamente para fortalecer a política nacional de transplantes”, afirma.
Visando estimular essa “corrente do bem”, iniciativas legislativas estaduais também começam a oferecer incentivos aos doadores registrados. No Paraná, por exemplo, a recém-aprovada Lei nº 22.618/2025 passou a garantir benefícios práticos, como o direito à meia-entrada em eventos culturais e esportivos para os cidadãos com cadastro ativo na Aedo.
Ainda há, no entanto, a necessidade de ampliar as ações de conscientização em escolas e na sociedade como um todo. Como resumiu o senador Lucas Barreto (PSD-AP), responsável por conduzir a sessão comemorativa no Senado, promover a tecnologia salva vidas: “Divulgar a existência do sistema para que mais pessoas possam dele se beneficiar é renovar o nosso compromisso com milhares de brasileiros que ainda anseiam por uma nova vida na fila dos transplantes”.
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Redação i9Brasil
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