A Amazônia não pode ser tratada como biombo para desvio de recursos da inovação
Por Bruno Alencar*
Mais uma vez, o ecossistema de inovação da Amazônia aparece no noticiário pelos motivos errados. E isso precisa ser dito com clareza: quando recursos destinados à inovação são alvo de suspeitas de desvio, quem perde não é apenas o poder público. Quem perde é a Amazônia. Quem perde são os empreendedores sérios. Quem perde é a credibilidade de uma região inteira que luta todos os dias para provar que é capaz de gerar tecnologia, negócios, empregos e desenvolvimento.
A recente Operação Cruciatus, conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU), investiga supostas irregularidades na aplicação de recursos vinculados aos incentivos fiscais da Lei de Informática na Zona Franca de Manaus. A apuração envolve o bloqueio judicial de aproximadamente R$ 144 milhões e possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional, a ordem tributária e lavagem de capitais.
É importante deixar claro: investigação não é condenação. Ninguém deve ser apontado como culpado antes do devido processo legal. Mas também não podemos fingir normalidade diante de indícios graves envolvendo recursos que deveriam fomentar pesquisa, desenvolvimento, inovação e startups na Amazônia.
Como empreendedor, fundador de startups e CEO da Amazônia Venture Builder, recebo essa notícia com indignação e profunda preocupação.
Não apenas pelo valor envolvido. Mas pelo efeito corrosivo que casos como esse provocam em todo o ecossistema.
Enquanto recursos que deveriam chegar à inovação real são alvo de investigação, centenas de startups legítimas seguem enfrentando enormes dificuldades para acessar capital, desenvolver tecnologia, contratar talentos e escalar seus negócios.
São empreendedores sérios. Pesquisadores sérios. Institutos sérios. Startups sérias.
Gente que trabalha todos os dias, com muito menos recurso do que deveria, para transformar conhecimento em desenvolvimento econômico para a Amazônia.
O que revolta é que cada suspeita de desvio, cada uso indevido e cada estrutura opaca criada em torno de incentivos públicos atinge muito mais do que os eventuais responsáveis diretos.
Atinge a imagem da própria Amazônia. Alimenta a narrativa fácil de que incentivo regional não funciona. Enfraquece quem faz certo. Afasta investidores sérios.
Desmoraliza instrumentos que são essenciais para corrigir desigualdades históricas. E joga sombra sobre um ecossistema que deveria estar sendo fortalecido, não colocado sob suspeita permanente.
A Lei de Informática e os instrumentos de incentivo à inovação não existem para enriquecer intermediários, sustentar estruturas artificiais ou financiar projetos sem impacto real na região. Eles existem porque a Amazônia possui desafios estruturais únicos e importância estratégica para o Brasil.
Esses recursos não são favores. São mecanismos de desenvolvimento regional.
E desenvolvimento regional exige responsabilidade, transparência, fiscalização e resultado mensurável. Por isso, não basta aparecer depois que o problema estoura.
É preciso agir antes. É preciso fortalecer a governança. É preciso dar transparência aos projetos apoiados. É preciso acompanhar a execução técnica e financeira. É preciso saber quem são os beneficiários finais. É preciso medir impacto real na região.
É preciso separar quem constrói de quem captura.
E, quando houver desvio de finalidade comprovado, é preciso consequência. Sem consequência, o incentivo vira brecha. Sem transparência, o discurso de inovação vira fachada. Sem governança, a Amazônia vira argumento de captação, mas não destino real do desenvolvimento.
Quem trabalha corretamente não teme fiscalização. Pelo contrário. Fiscalização séria protege o ecossistema. Protege os bons projetos. Protege os empreendedores legítimos. Protege as instituições sérias. Protege a imagem da Amazônia.
A Amazônia Venture Builder e todas as startups que compõem nosso ecossistema repudiam qualquer prática que desvirtue os objetivos dos incentivos destinados à pesquisa, desenvolvimento, inovação e empreendedorismo.
Também reafirmamos nosso compromisso com a transparência, com a geração de impacto real e com o desenvolvimento sustentável da região.
E fazemos um convite público à SUFRAMA, à Polícia Federal, à CGU, ao Ministério Público, às indústrias investidoras e a todos aqueles que desejam conhecer de perto o trabalho sério realizado no Amazonas:
nossas portas estão abertas! Temos orgulho do que estamos construindo!
Porque a melhor resposta para qualquer suspeita sobre o uso dos recursos destinados à inovação é mostrar resultados concretos, projetos reais, empresas reais e empreendedores que dedicam suas vidas ao desenvolvimento da Amazônia.
A Amazônia não pode continuar sendo lembrada por escândalos, suspeitas e distorções. A Amazônia precisa ser reconhecida por sua capacidade de inovar.
E os recursos destinados a esse propósito precisam chegar a quem realmente trabalha por ele.
*Bruno Alencar é CEO da Amazônia Venture Builder
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