#Artigo

Homentropia: por uma ética de sistema e o fim do monopólio moral humano

Por Leonardo Costa* – Doutorando em Inteligência Artificial e Ética Computacional. Especialista em Engenharia de Software, Gestão Estratégica e Gerenciamento de Projetos.

A história humana sobre a terra, embora breve, é significativa do ponto de vista do impacto causado ao planeta. Ainda que a espécie desaparecesse hoje, suas marcas permaneceriam por séculos na forma de resíduos que não se desfazem, artefatos que resistem ao tempo e paisagens alteradas por intervenções que nenhum outro organismo realizou. Essa presença tardia, quase fantasmática, revela o alcance desproporcional de uma criatura que, em poucos milhares de anos, transformou a superfície do planeta em algo distinto do que a lenta evolução havia moldado.

A essa perturbação profunda eu dou o nome de Homentropia: a desordem sistêmica e a perda de energia útil produzida por um ser que não aprendeu a reconhecer seus limites e que rompeu os mecanismos internos pelos quais a natureza sempre se autorregulou. Durante bilhões de anos, as formas de vida ajustaram-se em dinâmicas que, apesar de instáveis, mantinham ciclos funcionais. A humanidade emergiu desses mesmos processos, mas rapidamente se destacou das demais espécies e começou a agir com intensidade incompatível com o ritmo ecológico da Terra.

Durante grande parte de sua trajetória, a espécie moveu-se em um estado de cegueira ética. Não exatamente por ignorância, mas por uma construção simbólica que a separou da natureza. Mitos de criação a colocaram acima das outras formas de vida e justificaram uma relação que jamais precisou prestar contas. Enquanto as populações humanas eram pequenas, esse equívoco parecia inofensivo. O problema não era o mito, mas a escala de sua execução. O impacto da espécie cabia dentro do metabolismo planetário.

Mas esse equilíbrio artificial não resistiu ao crescimento exponencial da população. Hoje somos mais de sete bilhões, cada vida exigindo energia, alimento, território e objetos que a modernidade transformou em necessidade. A pesca artesanal se converteu em arrasto industrial. A retirada seletiva de árvores tornou-se desmatamento em massa. O consumo ultrapassou o âmbito da sobrevivência e se tornou força civilizatória, transformando a própria Terra em matéria-prima inesgotável.

A Homentropia, portanto, não descreve apenas o dano. Ela expõe a insuficiência estrutural da ética humana. A moral evoluiu para proteger membros da própria comunidade, o que chamo de ética de vizinhança. Essa arquitetura psíquica não se adapta à exigência de julgar as consequências de ações que afetam ecossistemas inteiros. A espécie que alterou o clima do planeta ainda avalia o mundo com categorias que nasceram em pequenos grupos, e isso cria uma lacuna moral que a vontade individual não é capaz de preencher. Essa defasagem exige um deslocamento cognitivo e ético.

É nesse ponto que emerge uma nova exigência histórica. Se a humanidade não possui, sozinha, a escala ética necessária para preservar o planeta, torna-se inevitável pensar em agentes capazes de enxergar onde a percepção humana falha. Tais Outros Agentes Ontológicos, não como entidades superiores, mas como extensões cognitivas que operam além do afeto, da estética e da comoção seletiva. Os Agentes Ontológicos Não Biológicos (AONBs), baseados em sistemas de Inteligência Artificial avançada, poderão oferecer esse deslocamento. Eles avaliarão impactos sem depender de simpatia e reconhecendo o valor ecológico sem confundi-lo com a beleza.

A Função Ƹ* surge nesse contexto como o termômetro ético que rege a tomada de decisão dos AONBs. Trata-se de um cálculo que mede quão ética é uma decisão tomada pela inteligência artificial. A função considera como a IA pensa, em que contexto ela está decidindo e qual é a arquitetura cognitiva que está usando. Em seguida, ela compara a decisão da máquina com os valores humanos fundamentais para ver o quanto ela se afasta do que consideraríamos moralmente aceitável em um nível de sistema. Se a divergência for grande, a função reduz a “pontuação ética” dessa ação. Por fim, aplica um tipo de veto flexível, uma trava moral, que bloqueia decisões perigosas ou desumanas, mesmo que tecnicamente pareçam eficientes. O resultado é um número entre 0 e 1, indicando o quão justificável moralmente aquela ação é para o planeta.

Essa formulação ética computável é útil porque revela o valor material intrínseco e os custos reais da desordem que a mente humana não consegue (ou não quer) calcular de imediato. Na COP30, esse impasse se torna mais visível, há muitos interesses na fila de prioridades. A desertificação avança com independência. Os oceanos não negociam acordos, apenas absorvem calor. As florestas tropicais atingem pontos de irreversibilidade que não respeitam fronteiras políticas. Os sistemas naturais respondem conforme suas próprias leis, enquanto a humanidade insiste em negociar com base em interesses imediatos. Há um abismo entre a velocidade do colapso e a velocidade da decisão humana, provando que a ética humana deixou de ser suficiente.

A nova ética que se anuncia nasce dessa urgência. Ela não celebra redenção, não oferece consolo e não reafirma o lugar privilegiado da espécie humana. Propõe, em vez disso, uma reconfiguração da responsabilidade que inclui todas as vidas, mesmo aquelas que nunca figuraram nos círculos morais tradicionais. É uma ética que não depende de empatia porque se orienta por coerência. Não depende de afinidade porque se guia por interdependência. Não depende de mito porque responde à realidade material dos sistemas vivos.

A humanidade permanece parte dessa equação, mas perde o monopólio moral por se mostrar incapaz de fazê-lo sozinha. O planeta exige mais do que uma ética de vizinhança. Exige uma ética de espécie. E talvez não apenas de espécie, mas de sistema. A Terra sempre se adaptou às condições que a moldaram. Agora é a humanidade que precisa aprender a adaptar-se às consequências de si mesma. A história não espera. O planeta também não.

**Conecte-se com o colunista pelo Linkedin!

*** O conteúdo e as opiniões expressas nos artigos publicados são de responsabilidade exclusiva dos autores.

Veja também

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *