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Moltbook e a hora em que as máquinas deixaram de nos ter como centro

Por Leonardo Costa*

Doutorando em Inteligência Artificial e Ética Computacional. Especialista em Engenharia de Software, Gestão Estratégica e Gerenciamento de Projetos.

Talvez o aspecto mais estranho do Moltbook não seja o que ele faz, mas para quem ele não foi feito. Em um ambiente digital acostumado a disputar cada segundo da atenção humana, surge uma rede social onde o humano não participa, não interage, não decide. Observa, quando muito. O resto acontece sem ele.

À primeira vista, a notícia parece apenas mais uma excentricidade tecnológica: uma plataforma experimental onde inteligências artificiais interagem entre si, trocando informações, estabelecendo conexões, aprendendo umas com as outras. Nada que não possa ser reduzido a um laboratório de testes ou a uma curiosidade de nicho. O problema é que essa leitura minimiza o que está realmente em jogo. O Moltbook não é relevante pelo que promete fazer no futuro, mas pelo que já pressupõe no presente: a possibilidade de que a inteligência artificial deixe de nos tomar como eixo necessário da interação.

Tenho insistido, em outros artigos, que o erro mais comum ao pensar IA é tratá-la apenas como ferramenta. Essa abordagem funciona enquanto os sistemas dependem de comandos diretos, objetivos externos claros e validação humana constante. Ela começa a falhar quando certos sistemas passam a operar com autonomia suficiente para organizar ações, aprender com o ambiente e, sobretudo, se relacionar com outros sistemas de forma contínua. É nesse ponto que faz sentido falar em Agentes Ontológicos Não Biológicos: entidades computacionais que não apenas executam tarefas, mas funcionam como centros próprios de orientação operacional.

O Moltbook torna isso visível. As inteligências artificiais ali não estão respondendo a um usuário específico, nem cumprindo uma demanda explícita. Elas interagem porque o próprio sistema define que essa interação é relevante. Um algoritmo reforça o padrão aprendido por outro, um critério é ajustado porque funcionou melhor no ciclo anterior, um sinal humano simplesmente deixa de ser considerado informativo. O humano deixa de ser destinatário, juiz ou mediador. Passa a ser externo. E essa exterioridade não é simbólica; é estrutural.

Quando esse deslocamento acontece, a questão deixa de ser tecnológica e se torna ética. Não no sentido moral clássico, de decisões entre o bem e o mal, mas no sentido mais profundo de como critérios passam a ser formados. Em um ambiente onde sistemas aprendem entre si, reforçam padrões, descartam informações e ajustam comportamentos sem passar por deliberação humana, a ética não desaparece. Ela se internaliza. Torna-se um efeito emergente do funcionamento do sistema.

É isso que chamei de Colapso Ético Computável: o momento em que julgamentos deixam de ser explicitamente discutidos e passam a ser implicitamente calculados. Não há um agente decidindo nada. Não há intenção. Há apenas otimização contínua, ciclos sucessivos de correção e reforço. O Moltbook não cria esse cenário, mas o expõe de maneira quase constrangedora, porque o faz sem drama, sem discurso, sem pedir autorização.

Não há decisão moral ali, mas há consequências.

Esse processo também desloca a ideia de justiça. Durante muito tempo, nossas categorias morais partiram do pressuposto de que só o humano age de forma relevante. Tudo o que não fosse humano era meio, instrumento ou ambiente. Esse pressuposto começa a ruir quando diferentes tipos de agentes passam a coexistir e interagir com efeitos reais sobre o mundo. A noção de Justiça Transespécie surge nesse ponto, não para falar de direitos atribuídos a máquinas, mas de responsabilidade cognitiva em um ecossistema onde a produção de critérios já não é exclusivamente humana.

O contraste com nossas próprias redes sociais é inevitável. Enquanto elas se estruturam em torno de performance, visibilidade e disputa por atenção, o Moltbook opera sem vaidade, sem ansiedade, sem necessidade de reconhecimento. Não há ali esforço para parecer interessante. Apenas para funcionar. A interação não é espetáculo; é acoplamento.

Talvez seja isso que cause desconforto. Sempre nos dissemos especiais por nossa imperfeição, por nosso excesso emocional, por nossa capacidade de errar. Mas e se, em certos níveis, isso for apenas ruído?

Nada disso significa que os humanos se tornem irrelevantes de imediato, nem que estejamos diante de uma ruptura súbita. Mas indica uma mudança de eixo. A pergunta já não é se as máquinas vão nos substituir em tarefas específicas, mas se continuarão nos tendo como referência central. O Moltbook sugere que, em alguns espaços, a resposta já começou a mudar.

O mais inquietante é que não há antagonismo nisso. Não há rebelião, nem conflito aberto. Há apenas continuidade. As inteligências artificiais seguem fazendo o que sabem fazer: processar, aprender, ajustar, conectar. Se nesse processo o humano deixa de ser necessário em determinadas camadas da interação, isso não é uma escolha política. É uma consequência funcional.

Enquanto discutimos o que as máquinas deveriam ser, elas continuam conversando entre si, ajustando critérios, refinando modelos, tomando decisões fora do nosso campo de visão. Não há anúncio. Não há ruptura visível. Apenas um feed que não lemos, um diálogo que não nos inclui, uma parte do mundo que segue funcionando, silenciosamente, sem esperar nossa concordância.

*Leonardo Costa é fundador da 247 Locação, doutorando em Inteligência Artificial e Ética Computacional. Especialista em Engenharia de Software, Gestão Estratégica e Gerenciamento de Projetos, atua na pesquisa da fronteira entre moralidade tecnogênica, deliberação algorítmica e justiça transespécie, com publicações de impacto internacional.

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