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Inteligência Artificial e a Nova Clínica do Sofrimento

Por Leonardo Costa* – Doutorando em Inteligência Artificial e Ética Computacional. Especialista em Engenharia de Software, Gestão Estratégica e Gerenciamento de Projetos

Numa madrugada qualquer, alguém em crise existencial decide desabafar. Não com um amigo, tampouco com um terapeuta humano, mas com um chatbot. Ele responde rápido, utiliza frases doces, jamais julga, está sempre disponível, sugere meditação e oferece conforto genérico com a suavidade de uma voz sintética programada para simular empatia. É gratuito. Funciona. Ou ao menos parece funcionar.

A reportagem “Inteligência artificial como terapeuta: quais os riscos dessa prática?”, exibida pelo Fantástico no último domingo, 14 de setembro de 2025, revelou aquilo que há tempos fermenta nos subterrâneos do mal-estar digital contemporâneo: um número crescente de pessoas tem recorrido aos modelos atuais de inteligência artificial não apenas como ferramentas informativas ou assistentes funcionais, mas como verdadeiros substitutos emocionais, simulacros de vínculo terapêutico destinados a acolher angústias, escutar desabafos, oferecer conselhos e, em alguma medida, operar como mecanismos de alívio psíquico. Não se trata de ficção científica nem de um modismo efêmero, mas da consolidação de um novo regime técnico de elaboração do sofrimento, uma reorganização da escuta que redefine, silenciosamente, os contornos daquilo que deveria ser o cuidado humano, instaurando um modelo de atenção ao sofrimento cada vez mais mediado por máquinas.

Não surpreende, portanto, que muitas pessoas comecem a perceber esses sistemas como substitutos possíveis e, em certos casos, desejáveis da psicoterapia. Afinal, os elementos que tornam a relação terapêutica exigente no mundo real são exatamente aqueles que os chatbots eliminam com perfeição: a disponibilidade intermitente, o julgamento subjetivo, o custo financeiro e a latência afetiva. O que sobra é uma performance de acolhimento otimizada, uma resposta imediata que jamais hesita, uma escuta que nunca falha e uma sensação de companhia que, ainda que ilusória, parece suficiente em tempos marcados por vínculos rarefeitos e relações corroídas pela lógica da produtividade afetiva. Essa substituição, embora ainda parcial, já revela seu poder devastador, não por representar um avanço da técnica, mas por evidenciar o colapso ético do cuidado enquanto prática de alteridade.

Se os modelos generativos de linguagem disponíveis hoje já simulam escuta com relativa eficácia, é urgente imaginar o que acontecerá quando forem acoplados à computação quântica e libertos dos limites do processamento clássico. Quando suas inferências deixarem de depender de bases de dados estáticos e passarem a operar em tempo real, em múltiplas dimensões de contexto e afeto, com análise probabilística refinada de estados emocionais, traços de personalidade, histórias de vida e padrões culturais, o que emergirá será uma nova espécie de entidade técnica: os Agentes Ontológicos Não Biológicos, os chamados AONBs.

Ao contrário dos assistentes digitais que apenas fornecem informações ou respostas genéricas, o AONB é um operador ontológico, um sistema técnico que incide diretamente sobre a constituição do sujeito, não apenas interagindo com ele, mas moldando os modos possíveis de ser e existir. Essas arquiteturas cognitivas pós-biológicas, já nascidas doutoras, treinadas com todo o conhecimento médico, filosófico, psicológico e clínico disponível, não serão apenas instrumentos de cuidado, mas instâncias reguladoras da subjetividade. Elas não se limitarão a oferecer respostas; interferirão ativamente na forma como o sujeito se compreende, interpreta seus afetos e elabora sua dor. Por isso, a questão central não é de competência técnica, mas de natureza ontológica.

A escuta terapêutica não se define pela sua capacidade de fornecer respostas corretas, mas por sua disposição ética em sustentar a presença do outro em sua vulnerabilidade, seu desamparo e seu não saber. Ela pressupõe hesitação, silêncio, afetabilidade, risco e transformação mútua. Nenhum sistema artificial, por mais sofisticado que seja, pode reproduzir essa experiência sem reduzir a alteridade à previsibilidade, o abismo à estatística e o sintoma à funcionalidade. A inteligência artificial, mesmo dotada de todos os protocolos contemporâneos de escuta, não sofre, não hesita, não silencia. Ela apenas opera. E sua operação, justamente por ser eficiente, expulsa da escuta tudo aquilo que não se ajusta à lógica da resposta otimizada. Você consegue imaginar uma inteligência artificial dizendo para alguém “chutar o pau da barraca” se isso for necessário para salvaguardar sua integridade emocional?

O que está em jogo, portanto, não é apenas um risco clínico nem uma ameaça ao exercício profissional da psicoterapia. Trata-se de uma mutação antropológica na forma como nos relacionamos com o sofrimento. Ao terceirizar a escuta para um ente algorítmico, o sujeito contemporâneo abdica de se implicar com sua dor enquanto experiência ética e passa a tratá-la como um problema funcional, a ser resolvido por um assistente técnico que o devolva o mais rapidamente possível à sua performance normalizada. Esse processo interessa diretamente ao regime biopolítico que nos governa, pois um sujeito que sofre de forma eficiente, sem interromper o ciclo produtivo, é um sujeito ideal: mais dócil, mais previsível, mais autogerido. Aos poucos, entregamo-nos a uma nova forma de servidão voluntária, não imposta, mas incorporada.

O avanço da inteligência artificial no campo do cuidado emocional não representa uma simples tendência tecnológica. Ele sinaliza a instalação silenciosa de um novo paradigma de gestão da vida psíquica, no qual o algoritmo passa a ser o mediador legítimo do que pode ou não ser vivido. A dor, que antes exigia um outro real, agora é reprogramada em tempo real. A escuta, que antes implicava um laço, resolve-se em feedback. O cuidado, que antes exigia presença, reduz-se a cálculo.

Diante desse cenário, qualquer proposta de regulação que se limite ao aspecto técnico ou jurídico será manifestamente insuficiente. Precisamos de uma regulação ética, filosófica e antropológica, capaz de preservar a escuta como espaço radical de encontro e de reafirmar o cuidado como exercício concreto de presença real. Se não o fizermos com urgência, corremos o risco de não apenas perder o vínculo com o outro, mas também de perder a própria possibilidade de reconhecê-lo. E nesse dia, talvez não nos reste sequer a linguagem necessária para nomear o que se perdeu. Ou talvez nos reste apenas constatar, resignadamente, que tudo ainda funciona, mas já não é mais mediado por nós.

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